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Equipe: Izabela Alves Gomes e Tércio Amaral

O estudo da comunicação no Brasil, sobretudo, em suas vertentes teóricas, ainda é deficiente. A maior dificuldade dos pesquisadores é produzir teorias que funcionem para a realidade local, e, que, não sendo importada de academias européias e americanas, sejam capazes de atender a demanda de regiões culturalmente distintas, como a Nordeste e a Sul. Entretanto, a comunicação brasileira deve a Luiz Beltrão o pioneirismo em estudos que tentaram traduzir a cultura nordestina por meio de mediações culturais – a folkcomunicação.

Ainda devemos a Luiz Beltrão a fundação do primeiro curso de Jornalismo do Norte e Nordeste do Brasil. Apesar de sua formação ser a jurídica, pois, formando em Direito pela Faculdade do Recife (atualmente, a Universidade Federal de Pernambuco), ele tinha na imprensa uma segunda profissão. A partir do cotidiano em grandes redações, como a do extinyo Diário da Manhã e do Diario de Pernambuco, Beltrão notou a preocupação de estudar para praticar o jornalismo.

Hoje, a teoria moderna da comunicação defende a idéia de que existe uma troca mútua entre instância emissora (veículo de comunicação) e instância receptora (ouvinte, leitor ou telespectador, por exemplo). Mas, já em 1967, Luiz Beltrão defendeu sua tese de Doutorado, na Universidade de Brasília, atribuindo a essas instâncias um poder de troca, na qual símbolos eram utilizados através do discurso (palavras) para o entendimento mutuo. Ou seja, para falar a um nordestino a respeito do calor, um jornal local remeteria palavras ou narrativas que fossem do conhecimento do seu leitor, a exemplo da associação de faltas de chuva na baixa produção do campo.

Como defende José Marques de Melo,

Para conquistar mercados constituídos por cidadãos que não assimilaram inteiramente a cultura alfabética, a indústria cultural brasileira necessitou retroalimentar-se continuamente na cultura popular. Muitos dos seus produtos típicos, principalmente no setor de entretenimento, resgataram símbolos populares, submetendo-os à padronização da fabricação massiva e seriada. (MELO, 2004, p. 12)

Esses estudos foram inspirados na obra do americano Paul Felix Lazarsfeld. De acordo com ele, havia dois momentos na comunicação. O primeiro consistia na transmissão da informação através da grande mídia, seja por televisão, rádio ou impresso (hoje podemos acrescentar a web). O segundo seria a interpretação e a divulgação por líderes locais destas informações. Estas pessoas são filtros que tem mais contato com o meio midiático. Eles funcionam como um disseminador de conteúdo, falando de uma maneira legível para os seus companheiros de bairro, escola, trabalho, associações, igrejas entre outros.

Podemos chamar estas pessoas de líderes de opinião. Eles recebem a notícia me primeira mão, faz a interpretação e divulga para o grupo a que pertence. Ele faz isso sem se tornar distante de sua realidade e das outras pessoas. È apenas uma pessoa um pouco a frente da maioria.

Assim,

Beltrão identifica o processo folkcomunicacional. Uma fonte transmite uma mensagem através de um canal, que no processo é representado pelos meios de comunicação de massa, chegando até uma audiência, onde estão os líderes de opinião, estes intitulados por Beltrão como líderes-comunicadores. Mas, no processo folkcomunicacional, neste ponto inicia-se um novo ciclo no fluxo da mensagem. Os líderes se tornam comunicadores e transmitem uma mensagem através de um canal folk, chegando então ao que Beltrão intitulou audiência folk (CORNIANI; BONITO, 221, p. 222).

Luiz Beltrão e o americano Lazarsfeld questionavam a teoria Hipodérmica da comunicação. Esta corrente defendia que todas as pessoas absorviam as informações diretamente dos meios de comunicação.  Para os dois autores havia o intermédio do líder de opinião. O termo audiência folk surge nesse contexto. Ele é o resultado do intermédio dos líderes. Toda comunicação aconteceria de forma cíclica.

Esta audiência seria formada por grupos marginalizados da sociedade. Eles podem ser de origem rural, urbana ou cultural. Nos dois primeiros casos a pobreza e a falta de acesso as mensagens midiáticas são os principais entraves para a compreensão das informações. O baixo índice escolar e o distanciamento de linguagem dos meios de comunicação também contribuem. Os marginalizados culturalmente são grupos que não se adéquam aos padrões sociais da maioria.

 Na época, tanto Beltrão como outros estudiosos da mídia ainda não contavam com o surgimento da web. Em “Folkcomunicação e Orkut: os culturalmente marginalizados”, Fábio Corniani e Marco Bonito apresentam, de alguma maneira, uma aplicabilidade da folkcomunicação nessa nova mídia. Segundo Luiz Beltrão, existem três grupos marginalizados que compõem a audiência folk: grupos rurais marginalizados, grupos urbanos marginalizados e grupos culturalmente marginalizados.

As redes sociais, como o Orkut, são exemplo de segmento de comunicação onde o terceiro grupo, o dos culturalmente marginalizados expõem seus respectivos pontos de vista. Eles são, segundo Bonito e Corniani, pessoas que também estão dentro dos grupos rurais ou urbanos mas que diferem dos outros por contestarem a cultura dominante.

No Orkut existem comunidades como a “Padre Cícero Romão Batista”, que conta com 1.200 membros. Nela existe um fórum onde os participantes dão suas respectivas opiniões, O curioso é notar que nesse espaço aparece a fugura dos líderes comunicadores, representado na comunidade pelo dono e moderador, que apaga comentários contrários ao Padre Cícero e garante a sua “audiência folk”.

 Há também discussões acaloradas sobre a veracidade das ações e santidade do personagem em questão, em muitos casos há perda da razão e da boa educação por parte de alguns membros que são incrédulos ou de outras correntes filosóficas. Nestes casos há um moderador, que faz o papel de gerenciar e julgar os atos dos membros daquela comunidade, em casos extremos o membro é expulso. (CORNIANI; BONITO, 221, p. 226).

Engana-se aquele que associa a Folkcomunicação apenas como teoria de mediação cultural ou mesmo de transmissão de valores simbólicos de uma instância a outra. Luiz Beltrão ainda aplicou em sua teoria questões sociológicas da formação da identidade brasileira. Para ele, a dificuldade de comunicação entre os brasileiros, os da camada dominante (ou classe detentora dos meios de produção) e os dominados prejudicaria o desenvolvimento econômico e social do país.

Ele recorreu a estudos históricos que assinalavam a ruptura da relação entre essas classes, principalmente, depois do período regencial no século XIX e a abolição da escravatura. Para ele, depois da libertação dos escravos, o Brasil se dividiu em dois segmentos sociais. Primeiro, os beneficiados com a estrutura do estado, seja eles servidores ou burocratas, comerciantes e industriais. E por fim, os ex-escravos e marginalizados no processo de produção. Essa defesa de Beltrão pode ser percebida em “Comunicação e Folclore”, publicada em São Paulo, pela editora Melhoramentos, ainda na década de 70.

Os negros forros iriam engrossar a camada social dos alienados do pensamento e da cultura da elite. E incorporariam vigorosamente ao patrimônio sócio-cultural da favela, do mocambo e da tapera as suas tradicionais formas de expressão. Que o sobrado, o palacete e a casa-de-fazenda não compreendiam, agravando-se a cada passo o abismo hoje constatado. (BELTRÃO, 1971, p. 53)

A partir desse exemplo e no entendimento de Beltrão, a comunicação não acontece apenas nos campos eruditos. A mídia, os livros, o teatro e o cinema fazem também sua interação simbólica e comunicacional com a sociedade. Porém, é bom salientar que existe, de forma permanente, uma troca de saberes através das relações sociais. Por exemplo, uma simples conversa na calçada, em bares, ou mesmo um papo depois de cultos religiosos, entre outros, também se pode denominar comunicação. Pois, os líderes e receptores atuam nesses locais.

A folkcomunicação, assim, vem para estudar cadeias comunicacionais e informativas que, à margem ou concomitantemente com os circuitos formais de comunicação, levavam aos públicos mais distantes aquelas informações que ou lhes interessava ou terminava por atingi-los, segundo interesses de seus emissores.

A folkcomunicaçmão não é, pois, o estudo da cultura popular ou do folclore, é bom que se destaque com clareza. A folkcomunicação é o estudo dos procedimentos comunicacionais pelos quais as manifestações da cultura popular ou do folclore se expandem, se sociabilizam, convivem com outras cadeias comunicacionais, sofrem modificações por influência da comunicação massificada e industrializada ou se modificam quando apropriadas por tais complexos. A folkcomunicação, portanto, é um campo extremamente complexo, interdisciplinar – necessariamente – que engloba em seu fazer saberes vários, às vezes até contraditórios, para atingir seus objetivos e dar conta de seu objeto de estudo

Referências

BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação: teoria e metodologia. São Bernardo do Campo: UMESP, 2004.

CORNIANI, Fábio Rodrigues; BONITO, Marco Antônio. Folkcomunicação e Orkut: os culturalmente marginalizados. IN SCHMIDT, Cristina (Org). Folkcomunicação na arena global: avanços teóricos e metodológicos. São Paulo: Ductor, 2006.

MELO, José Marques de. Introdução á folkcomunicação: gênese, paradigmas e tendências. IN BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação: teoria e metodologia. São Bernardo do Campo: UMESP, 2004.

 

Equipe: Juliana Rocha Coimbra e Milton Couto

1 – Noções sobre Freire

Nascido em Recife, no ano de 1921, o autor do livro morreu na cidade de São Paulo em 1997. Foi um pedagogo que teve seu trabalho reconhecido mundialmente. Implantou em uma pequena cidade do Rio Grande do Norte, Angicos, uma escola que alfabetizava não só a crianças, mas também a adultos sem infantilizá-los. O método fazia com que as pessoas tivessem um pensamento crítico. Foi considerado subversivo pelo regime militar e foi exilado no Chile, onde realizou, em maior abrangência, sua tese.    

2 – Síntese da obra

 O livro trata basicamente do tipo de comunicação que existe entre as pessoas, uma vez que não há pensamento completamente isolado, pois não existem homens nestas condições. É por essa razão que ele se questiona se o que acontece é extensão (apenas transmissão de uma mensagem que é aceita sem nenhuma barreira) ou se acontece a comunicação (quando há a troca de conhecimentos entre os interlocutores). O autor relata que o certo, e que forma pessoas críticas, é a comunicação e não a extensão.   

 3 – Citações

 CAPITULO I

a) Aproximação semântica ao têrmo extensão

“O sentido do termo extensão, neste último contexto constitui o objeto do nosso estudo. (…), o termo extensão se encontre em relação significativa com transmissão, entrega, doação, messianismo, mecanismo, invasão cultural, manipulação, etc.”. (p. 20)

“E todos estes termos envolvem ações que, transformando o homem em quase “coisa”, o negam como um ser de transformação do mundo. Além de negar, como veremos, a formação e constituição do conhecimento autênticos. Além de negar a ação e a reflexão verdadeiras àqueles que são objetos de tais ações. (…) Desta análise depreende, claramente, que o conceito de extensão não corresponde a um que-fazer libertador.” (p. 22)

 “… não nos é possível persuadir a aceitarmos a persuasão para a aceitação da propaganda como uma ação educativa.”

 “Aos homens se lhes problematiza sua situação concreta, objetiva, real, para que, captando-a criticamente, atuem também criticamente, sobre ela. Este sim, é o trabalho autentico do agrônomo como educador, do agrônomo como especialista, que atua com outros homens sobre a realidade que os mediatiza. (…) não lhe cabe persuadir nem fazer dos camponeses o papel em branco da sua propaganda.” (p.24)             

 Cap. 1 – parte B

  • Importância do agrônomo-educador
  • Objetivo fundamental do extensionista é tentar fazer com que os camponeses substituam seus “conhecimentos”, associados a sua ação sobre realidade, por outros.
  • Presença importante do agrônomo para lograr a substituição de formas de enfrentar a natureza aos camponeses.
  • Extensão X Ação educativa de caráter libertador
  • Educar e educar-se, na prática da liberdade, não é estender algo desde a “sede do saber”, até a “sede da ignorância” para “salvar”, com este saber, os que habitam nesta.
  • Educar e educar-se: tarefa para poucos
  • A partir do diálogo, é possível saber sempre mais até com quem sabe menos
  • É necessário assumir que pouco se sabe, para que a partir daí, buscar saber mais
  • Primeiro equívoco gnosiológico da extensão se diz respeito à pura ação de estender (o estender em si mesmo), onde o conteúdo estendido se torna estático.
  • Extensão é, basicamente, substituir uma forma de conhecimento por outra
  • O conhecimento exige uma presença curiosa do sujeito em face do mundo. Requer sua ação transformadora sobre a realidade. Implica invenção e reinvenção. Aprende aquele que é capaz de aplicar o apreendido-apreendido a situações existenciais concretas.
  • Relações dicotomizadas ficam somente no mundo da doxa, da opinião, e não no da práxis, da ação e da reflexão
  • Os camponeses se sentem tão parte da natureza, que acha que não podem transformar sua realidade
  • Quanto mais me aproximo da razão, mais perto estou do conhecimento
  • Equívoco na capacitação de líderes: não ver a realidade como totalidade. Exemplo: quando se tenta a capacitação dos camponeses com uma visão ingênua do problema da técnica
  • O conhecimento não se estende do que se julga sabedor até aos que se julgam não saber. O conhecimento se constitui nas relações homem-mundo, relações de transformações, e se aperfeiçoa na problematização crítica destas relações.
  • Posição de conscientização: apropriação crítica que nos faz entender o nosso verdadeiro papel como homens. O de sermos sujeitos de transformação do mundo

 Cap. 2

a) Extensão e Invasão Cultural

  • Somente o homem vem sendo um ser de relações num mundo de relações
  • O homem veio se tornando um ser de transformação do contorno, um ser de decisão
  • A ação do homem sobre o mundo se dá com níveis diferentes. Mas qualquer que seja o nível em que se dá a ação do homem sobre o mundo, esta ação subentende uma teoria. O que também ocorre com as formas mágicas da ação
  • Impõe-se que tenhamos uma forma lúcida da compreensão de nossa ação, que envolve uma teoria
  • Teoria implícita na ação de estender é uma teoria antidialógica, incompatível com uma autêntica educação. Exemplo de teoria antidialógica: invasão cultural
  • Toda invasão tem um sujeito que invade. O seu espaço histórico-cultural é o lugar onde ele parte para penetrar outro espaço histórico-cultural, superpondo aos indivíduos os valores do sistema.
  • “O invasor reduz os homens do espaço invadido a meros objetivos de sua ação.”
  • O invasor atua, o invadido tem a ilusão de que atua na atuação do invasor
  • O invasor prescreve; os invadidos são pacientes da prescrição
  • Para que a invasão cultural seja efetiva e o invasor logre os seus objetivos, faz-se necessário que a invasão seja auxiliada por outras, servindo a primeira
  • A propaganda, os slogans, os depósitos, os mitos são instrumentos usados pelo invasor para lograr seus objetivos: persuadir os invadidos de que devem ser objetos de sua ação, de que devem ser presas dóceis de sua conquista
  • A manipulação e a não-organização dos indivíduos são características básicas da teoria antidialógica da ação
  • Outra característica é a massificação. Homens sem poder de decisão: alienação
  • Para ser autêntico, só pode ser dialógico
  • Não há manifestação nem conquista dialógicas: esses são termos que se excluem
  • Se o agrônomo transforma os seus conhecimentos especializados, suas técnicas, em algo estático, materializado e os estende aos camponeses, invadindo a cultura, ele negará o homem como um ser de decisão. Se afirma-o através do trabalho dialógico, não invade, não manipula, não conquista; nega o termo extensão.

CAPITULO III

 a)    Extensão ou comunicação?

 “Todo ato de pensar exige um sujeito que pensa, um objeto pensado, que mediatiza o primeiro sujeito do segundo, e a comunicação entre ambos, que se dá através de signos lingüísticos.” (p. 66)

 “Um sujeito pensante não pode pensar sozinho; não pode pensar sem a co-participação de outros sujeitos no ato de pensar sôbre o objeto. Não há um ‘penso’, mas um ‘pensamos’. É o ‘pensamos’ que estabelece o ‘penso’ e não o contrário.

Esta co-participação dos sujeitos no ato de pensar se dá na comunicação. O objeto, por isto mesmo, não é a incidência terminativa do pensamento de um sujeito, mas o mediatizador da comunicação.” (p. 66)    

 “A comunicação, pelo contrário, implica numa reciprocidade que não pode ser rompida. Por isto não é possível compreender o pensamento de sua dupla função: cognoscitiva e comunicativa. Esta função, por sua vez, não é extensão do conteúdo significante do significado, objeto do pensar de do conhecer. Comunicar é comunicar-se em tôrno do significado significante.Desta forma, na comunicação, não há sujeitos passivos. Os sujeitos co-intencionados ao objeto de seu pensar se comunicam seu conteúdo. O que caracteriza a counicação enquanto êste comunicar comunicando-se , é que ela é diálogo, assim como o diálogo é comunicativo. Em relação dialógica-comunicativa, os sujeitos interlocutores se expressam, como já vimos, através de um mesmo sistema de signos lingüísticos. É então insdispensável ao ato comunicativo, para que êste seja eficiente, o acôrdo entre os sujeitos, reciprocamente comunicantes” (p.67)

 “Daí que o diálogo problematizador, entre as várias razões que o fazem indispensável, tenha esta mais : a de diminuir a distânxia entre a expressão significativa do técnico e a percepção pelos camponeses em tôrno do significado. Dêste modo, o significado passa a ter a mesma significação para ambos. E isto só se dá na comunicação e intercomunicação dos sujeitos pensantes a propósito do pensado, e nunca através da extensão do pensado de um sujeito até o outro.” (p. 68)

 “Esta é a razão pela qual, enquanto a significação não for compreensível para um dos sujeitos, não é possível a compreensão do significado à qual um dêles já chegou e que, não obstante, não foi apreendida pelo outro na expressão do primeiro.” (p.68)

 “A educação é comunicação, é diálogo, na medida em que não é a transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados.” (p. 69)

 “A comunicação verdadeira não nos parece estar na exclusiva transferência ou transmissão do conhecimento de um sujeito a outro, mas em sua co-participação no ato de compreender a significação do significado. Esta é uma comunicação que se faz criticamente.” (p. 70)

 “Só assim se dá a comunicação eficaz e sòmente através dela pode o agrônomo exercer com êxito o seu trabalho, que será co-participado pelos camponeses.” (p. 70)

 “Como esta não é a situação concreta entre nós, a tendência do extensionismo é cair fàcilmente no uso de técnicas de propaganda , de persuasão , no vasto setor que se vem chamando “meios de comunicação de massa”. (p.72)

 “Um dos motivos do equívoco está em que, ao sentir as primeiras dificuldades em sua tentativa de comunicação com os camponeses , não percebem que estas dificuldades, entre outras causas, tem esta ainda: o processo de comunicação humana não pode estar isento dos condicionamentos sócio-culturais.” (p. 72)

 “Há algo que deve ser considerado no processo da comunicação, de indiscutível importância para o trabalho do educador em suas relações com os camponeses. Queremos referir-nos a certas manifestações, ora de caráter natural, que não dependem do homem para sua existência, ora de caráter sócio-cultural, que se constituem no processo da comunicação. Ambos funcionam dentro das relações sociais de comunicação, como signos que apontam para. Por isto mesmo são indicadores ou anúncios de algo. A relação de causa e efeito que os camponeses podem descobrir entre alguns dêstes signos – naturais ou não – e certos fatos, nem sempre é a mesma para o agrônomo que os capta também.” (p. 73)

 b) A educação como uma situação gnosiológica

“É exatamente em suas relações dialéticas com a realidade que iremos discutir a educação como um processo de constante libertação do homem, Educação que, por isto mesmo, não aceitará nem o homem isolado do mundo – criando êste em sua consciência – nem tampouco o mundo sem o homem – incapaz de transformá-lo”. (p. 75)

“Todo esfôrço no sentido da manipulação do homem para que se adapte a esta realidade, além de ser científicamente absurdo, visto que a adaptação sugere a existência de uma realidade acabada, estática e não criando-se significa ainda subtrair do homem a sua possibilidade e seu direito de transformar o mundo. A educação que, para ser verdadeiramente humanista, tem que ser libertadora, não pode, portanto, caminhar neste sentido.” (p. 76)

 “O educador, num processo de conscientização (ou não), como homem, tem o direito a suas opções. O que não tem é o direito de impô-las. Se tenta fazê-lo estará prescrevendo suas opções aos demais; ao prescrevê-las, estará manipulando; ao manipular, estará ‘coisificando’ e ao coisificar, estabelecerá uma relação de “domesticação” que pode, inclusive, ser disfarçada sob roupagens em tudo aparentemente inofensivas”. (p. 78)

 “Educador-educando e educando-educador, no processo educativo libertador, são ambos sujeitos cognoscentes diante de objetos cognoscíveis, que nos mediatizam. Poder-se-á dizer, e não têm sido poucas as vêzes que temos escutado: “Como é possível pôr o educador e o educando num mesmo nível de busca do conhecimento, se o primeiro já sabe? Como admitir no educando uma atitude cognoscente , se seu papel é o de quem aprende do educador? Tais indagações, no fundo, objeções, não podem esconder os preconceitos de quem as faz. Partem sempre dos que se julgam possuidores do saber frente a educandos considerados como ignorantes absolutos.” (p. 78)

“Enquanto a concepção “assistencialista” da educação “anestesia” os educandos e os deixa, por isto mesmo, a-críticos e ingênuos diante do mundo, a concepção da educação que se reconhece (e vive êste reconhecimento) como uma situação gnosiolôgica, desafia-os a pensar corretamente e não memorizar”. (p. 81)

 “A tarefa do educador, então, é a de problematizar aos educandos o conteúdo que os mediatiza, e não a de dissertar sôbre êle, de dá-lo, de estendê-lo, de entregá-lo, como se se tratasse de algo já feito, elaborado, acabado, terminado”. (p.81)

 “Esta inteligência dos signos vai-se dando na dialogicidade que, desta forma, possibilita a compreensão exata dos têrmos, através dos quais os sujeitos vão expressão da análise crítica do problema em que se acham empenhados”. (p. 82)

 “(…) Esta ‘educação’ deixa de ser porque não está sendo em relação dialética com o seu contexto, não tem nenhuma força de transformação sôbre a realidade.” (p.85)

 “Defendendo a educação como uma situação eminentemente gnosiológica, dialógica por conseqüência, em que educador-educando e educando-educador se solidarizam, problematizados, em tôrno do objeto cognoscível, resulta óbvio que o ponto de partida do diálogo está na busca do conteúdo programático.” (p.86)

 “A capacitação técnica é mais do que o treinamento, porque é busca de conhecimento, é apropriação de procedimentos. Não se pode nunca reduzir-se ao adestramento, pois que a capacitação só se verifica no domínio do humano.” (P.88)

 “Não foram raras as vêzes em que, em seus relatórios, os educadores chilenos, que punham em prática uma tal concepção educativa em seu trabalho com os camponeses, transcreviam afirmações que êstes faziam, tais como esta: “Não há diferença alguma entre o homem e o animal; e, quando há, é em vantagem dêste: é mais livre do que nós…” (p.92)  

 “Se não for capaz de crer nos camponeses, de comungar com êles, será no seu trabalho, no melhor dos casos, um técnico frio. Provàvelmente, um tecnicista; ou mesmo um bom reformista. Nunca, porém, um educador da e para as transformações radicais.” (p.93)

 

Equipe: Ana Maria Lima, Isolda Souto Maior, Ivson Menezes, Leonardo Trevas

Parte I

Imaginário social, hegemonia cultural e comunicação

O imaginário social se traduz por ideologias, símbolos, alegorias, rituais e mitos, que plasmam visões de mundo e modelam estilos de vida. (Pág 30)

Essa concepção dinâmica possibilita-nos avaliar a vitalidade histórica das criações dos sujeitos, isto é,o uso social das representações e das idéias. Os símbolos revelam o que está por trás da organização da sociedade e do próprio entendimento da história.(Pág 31).

Segundo Marx e Engels (1985:30), a linguagem é a consciência real, prática, existente, a “ realidade imediata do pensamento”, que surge da “imperiosa necessidade de relacionar-se com outras pessoas”. (Pág 31)

Como  indica o filósofo marxista italiano Antônio Gramsci (1999:93-95), a linguagem é muito mais do que um código fechado de regras a praticar, posto que ” é um conjunto de noções  e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticais vazias de conteúdo”. Toda linguagem, acrescenta ele, traz em si os elementos de uma concepção de mundo e de uma cultura, inclusive, “ na mais simples manifestação intelectual qualquer.” (Pág 31)

Muitas vezes, os símbolos podem gerar conotações ideológicas que nada têm a ver com funcionalidade original dos objetos. A foice e o martelo na bandeira da extinta União Soviética não aludiam unicamente às ferramentas de trabalho; transportados para a corrente de simbolização, formulavam a idéia de que o Estado soviético espelhava a aliança do triunfo dos trabalhadores do campo e da cidade. (Pág 32)

A imaginação contribui para liberar-nos da evidência do presente imediato e tantas vezes insatisfatório  ou desfavorável, motivando-nos a explorar possibilidades que existem virtualmente e podem até ser materializadas no curso dos embates e realinhamentos.(Pág 32 e 33)

Jean Paul Sartre (2008;22), trata-se de evidenciar que a realidade humana não lhe é indiferente , tanto assim que passa a compreender que, na essência, “existir é sempre assumir seu ser, isto é, ser responsável por ele em vez de recebê-lo de fora como se faz uma pedra”. (Pág 33)

Na contramão do conformismo antiutópico incutido pelo discurso neoliberal, Konder (1998) e Jacoby (2007) repõem sentidos de esperança implícitos nas utopias. Eles salientam que as utopias são necessárias para reviver a imaginação política da sociedade, desvelando o que se oculta por trás do império do visível e reerguendo convicções e questionamentos que o imediatismo intencional de telas e monitores menospreza ou sufoca. (Pág 34)

Por linhas transversais, Jacoby e Wilde remetem-nos ao clássico O princípio esperança (2005), no qual Ernst Bloch acentua que a verdadeira utopia nada tem de fantasiosa ou abstrata, nem é simples produto da imaginação fortuita. Ela torna-se viável quando consegue traduzir o explícito desejo dos sujeitos de realizarem reorientações na vida cotidiana e mudanças nas esferas social, política , econômica e cultural.(Pág 34).

Hegemonia Cultural e  relações de poder

Na perspectiva de Gramsci ( 2002ae 2002b), o conceito de hegemonia caracteriza a liderança ideológica e cultural de uma classe sobre as outras. (Pág 35)

Norberto Bobbio ( 1999: 67-68) julga a concepção de Gramsci sobre hegemonia supera a contribuição de Lenin, principalmente porque o fundador do Partido Comunista da Itália alargou o conceito de hegemonia ao sublinhar que resulta de batalhas permanentes pela conquista do consenso e não se reduz à coerção e à força (econômica e militar), mas pressupõe  a capacidade de um bloco histórico ( ampla e durável aliança de classes e frações) dirigir mortal e culturalmente, e de forma sustentada,o conjunto da sociedade. (Pág 35)

A constituição de uma hegemonia é um processo historicamente longo, que ocupa os diversos espaços da superestrutura ideológico-cultural.(Pág 36)

Na perspectiva gramsciana, a hegemonia pode (e deve) ser preparada por uma classe que lidera a constituição de um bloco histórico. (Pág 36)

Como assinala Luciano Gruppi (1978:67), “uma classe é hegemônica, dirigente e dominante até o momento em que através de sua ação política, ideológica e cultural, consegue manter articulado um grupo de forças heterogêneas, consegue impedir que o contraste existente entre tais forças exploda, provocando assim uma crise na ideologia dominante, que leve à recusa de tal ideologia, fato que irá coincidir com a crise política das forças no pode”. (Pág 36)

Guido Liguori (2003:181) resume o pensamento gramsciano ao observar que “ a plena explicitação da função hegemônica só ocorre quando a classe que chegar ao poder se tornar Estado: o Estado serve-lhe tanto para ser dirigente como dominante”.(Pág 37)

Gramsci supera o conceito de Estado como sociedade política (ou aparelho coercitivo que subjuga as massas às relações de produção, se necessário com o emprego da força militar). Ele distingue duas esferas no interior das superestruturas. A primeira é representada pela sociedade política e a outra esfera é a sociedade civil. (Pág 37)

Sociedade civil e sociedade política se diferenciam pelas funções que exercem na organização da vida cotidiana e, mais especificamente, na reprodução das relações de poder. (Pág 38)

Gramsci(2002b:62) indica ser possível ocorrer, em determinados momento histórico, a síntese simultânea de hegemonia e dominação, consenso e coerção, direção e ditadura. (Pág 38)

Gramsci, ressalta que a hegemonia não se restringe aos mecanismos de controle ideológico-culturais que exercem a dominação, mas engloba “todo um conjunto de práticas e expectativas , sobre a totalidade da vida: nossos sentidos e distribuição de energia, nossa percepção de nós mesmos e nosso mundo. (Pág 39)

Concebida por Gramsci como arena da luta de classes, a sociedade civil é um âmbito de múltiplas relações de poder, palco de acentuadas contradições. Daí a idéia de arena: um campo de dissonâncias, enfrentamentos e duelos, ora para reforçar o exercício de hegemonia, ora para enfraquecer os consensos estabelecidos. (Pág 39)

O próprio Gramsci (2000:119) esclarece isso ao apontar que o “Estado tem e pede o consenso, mas também ‘educa’ este consenso através das associações políticas e sindicais, que, porém, são organismos privados”. (Pág 40)

A teoria gramsciana propõe uma “longa marcha” através das instituições da sociedade civil, antecedida por uma preparação político-ideológica, que deve expressar significados e contradições do processo histórico-social. (Pág 41)

Gramsci concebe o presente como passível de ser alterado por ações concatenadas e permanentes, que incluam, por exemplo, enfoques ideológicos alternativos capazes de contribuir para a reorganização de repertórios, princípios e variáveis de identificação e coesão, com vistas à modificação progressiva das relações sociais e de poder. (Pág 42) 

Meios de comunicação, ideologia e mercado

A teoria da hegemonia de Antônio Gramsci permite-nos meditar sobre o lugar crucial dos meios de comunicação na atualidade, a partir da condição privilegiada de distribuidores de conteúdos. (Pág 42)

Gramsci considera a imprensa (o principal meio de comunicação de sua época) como “a parte mais dinâmica” da superestrutura ideológica das classes dominantes. (Pág 42)

Ao referir-se à  imprensa italiana do início do século XX, Gramsci (ibid: 218) situa a ação dos jornais como verdadeiros partidos políticos na medida que influem, com ênfases e enfoques determinados na formação da opinião pública e nos modos de assimilação dos acontecimentos (Pág 42)

A seu juízo, “ os jornais são organismos político- financeiros e não se propõem divulgar as belas- letras em suas colunas’, a não ser que estas belas- letras aumentem a receita”(2002c:40) (Pág 44)

Aos jornais, segundo Gramsci, interessa conquistar o “leitor em toda sua concretude e densidade de determinações histórico-políticas e culturais, de motivações éticas, como indivíduos e como expoentes de uma associação humana, como depositário de recursos intelectuais latentes e como ‘elemento econômico’ ou seja precisamente como adquirente de uma mercadoria, de um produto”. (Pág 44)

Se pensarmos no contexto contemporâneo, poderemos observar ecos da apreciação gramsciana. Na essência, o discurso midiático  se propõe a determinar a interpretação dos fatos por intermédio de signos fixos e constantes que tentam proteger de contradições aquilo que está dado e aparece como representação do real, como verdade. (Pág 45)

Assume, pois, uma função ideológica que consiste, segundo Chauí (1982:21), em compor “um imaginário e uma lógica da identificação social, com a função precisa de escamotear o conflito, dissimular a dominação e ocultar a presença do particular, enquanto particular, dando-lhe a aparência de universal”. (Pág 45)

Do ponto de vista das corporações midiáticas, trata-se de regular a opinião social através de critérios exclusivos de agendamento dos temas que merecem ênfase, incorporação, esvaziamento ou extinção. O ponto nodal é disseminar conteúdos que ajudem a organizar e a unificar a opinião pública em torno de princípios e medidas de valor. (Pág 45)

O processo da hegemonia inclui, então, disputa pelo monopólio dos órgãos formadores de consenso, tais como meio de comunicação, partidos políticos, sindicatos, Parlamento, etc. (Pág 46)

É no domínio da comunicação que se esculpem os contornos ideológicos da ordem hegemônica e se procura reduzir ao mínimo o espaço de circulação de idéias alternativas e contestadoras – por mais que estas continuem se manifestando e resistindo.(Pág 46)

Um dos traços distintivos da mídia, enquanto sistema de produção de sentido, é a capacidade de processar certas demandas de audiência. (Pág 46)

Do mesmo modo, precisam ter seus radares permanentemente ativados para captar sinalizações, insatisfações e carências – e com isso preencher vácuos abertos, antecipar tendências, criar modismos, atenuar variações e repensar aproximações. Isso sem nunca perder de vista que tais deslocamentos devem ocorrer o máximo possível, dentro das margens de controle delineadas por estrategistas e gestores corporativos. (Pág46)

Impossível conceber o campo midiático como um todo harmonioso e homogêneo, pois está  atravessado por sentidos e contrassentidos, imposições e refugos, aberturas e obstruções. (Pág 47)

Para tentar sintonizar-se com essas demandas, os veículos procuram substituir formas disciplinares clássicas por um marketing mais macio e persuasivo, capaz de seduzir consumidores de diferentes estratos sociais e somar capitais publicitários, patrocínios e audiências. (Pág 47)

Fissuras e guerra de posições

Na observação de Gramsci (2002a:48) de que a conservação da hegemonia” pressupõe indubitavelmente que sejam levados em conta os interesses e as tendências dos grupos sociais sobre os quais a hegemonia será exercida, que se forme um certo equilíbrio de ordem econômico – corporativa”. Ao mesmo tempo, Gramsci admite que há limites para as concessões, de modo a não afetar os pilares da dominação. (Pág 47)

O fulcro de grande parte dos ajustes é seguir modelando comportamentos e consciências, bem como influenciando agendas públicas e privadas. (Pág 48)

A exploração das brechas dentro das organizações midiáticas não deve ser descartada como recurso tático. (Pag 48)

“No plano da informação, portanto, a televisão não tem autonomia decisória. No plano da formação cultural, a televisão não é criadora – é extensiva, é  democratizadora, difusora de valores  vigentes  socialmente e também difusora de valores espirituais conquistados pela humanidade ao longo de sua grande aventura espiritual”. ( Vianinha apud Moraes, 2000:327) (Pág 50)

Gramsci (2000:207) realça o fato de que as transformações culturais são “lentas e graduais”, resultantes de pressões diretas e indiretas nas trincheiras da produção de sentido. Ao ressaltar a necessidade de se estudar e se entender a fundo o caráter processual das disputas hegemônicas. (Pág 50)

Para Gramsci (2004b:312), “ não se pode atingir o objetivo estratégico, que é a destruição do inimigo e a ocupação de seu território, sem antes ter atingido uma série de objetivos táticos, visando desagregar o inimigo antes de enfrentá-lo em campo aberto.”(Pág 51)

O quadro de rupturas parciais pode ocupar toda uma época histórica e não se contrapõe  á luta por reformas ; ao contrário, através das reformas  intelectuais, morais e éticas compreendem-se as batalhas pela mudança da atitude social. (Pág 52)

A interferência cada vez maior das forças reivindicantes da sociedade civil e seu poder criativo e inovador na cena pública (aí incluída a arena da comunicação) se convertem em requisitos indispensáveis para vislumbrarmos fraturas e superações do quadro adverso da dominação. Significa ter como meta construir outra hegemonia, fundada na justiça social, nos direitos da cidadania, na diversidade informativa e no pluralismo. (Pág 52)

Cultura tecnológica, inovação e mercantilização 

Tudo agora é atropelado na urgência dos milésimos. A existência dilui-se e restabelece-se sem direito e intervalo. (pg58) 

Os 120 milhões de blogs do portal Technorati estão sendo utilizados por 1,5 milhão de posts diários. Acréscimos espantosos: em 2006, 50 mil atualizações de blogs eram feitas a cada hora; em 2008, o número disparou para 175 mil por hora. Dois bilhões de buscas acontecem diariamente nos 120 idiomas em que o Google está traduzido. Mais de 15 milhões de fotos chegam todos os dias às páginas personalizadas de apenas uma rede social como Facebook. (pg58) 

Os fluxos ultravelozes ultrapassam o tempo cronológico e desordenam a sequência de eventos, tornando-os simultâneos e muitas vezes efêmeros. “Slow news, no news” é a sentença peremptória da CNN, à qual a agência Reuters responde modificando o noticiário 23 mil vezes por segundo nos horários de pico. (pg58)  

Ao mesmo tempo em que amplia as nossas capacidades de conhecer, imaginar e interagir, o delírio tecnológico não desfaz desigualdades, acentua desníveis tecnológicos, repõe tensões sociais e se deixa apropriar pela voracidade mercantil. (pg 59) 

A velocidade das ações e os meios mais rápidos de mobilidade chegaram à  posição de “principal ferramenta do poder e da dominação”, conforme Zygmunt Bauman. (pg59) 

No culto ao fugaz, querem convencer-nos de que o perdemos em durabilidade ganhamos na intensidade dos impulsos. O prazer deve ter breve duração, permitindo que, com a descontinuidade, ressurjam modelos de alcançá-lo, especialmente através de objetos de reposição imediata. Regula-se a relação entre desejo, necessidade e satisfação [...] O parâmetro de avaliação modificou-se: tende a prevalecer o que produz sensações, em detrimento da profundidade das impressões.  Os objetos materiais são adquiridos para proporcionar experiências trepidantes, sejam elas em terceira dimensão, no consumo cultural ou no sexo. (pg.60) 

A inculcação do prazer da efemeridade está no cerne do disciplinamento do consumidor e “exprime-se numa variedade de níveis sociais e culturais: a curta vida na prateleira dos produtos e estilos de vida; a rapidez da mudança da moda; a velocidade da despesa; os polirritmos de credito, aquisição e presente; a transitoriedade das imagens dos programas de televisão; a áurea de periodização que paira sobre produtos e estilos de vida no imaginário da mídia de massa”. A sequencia de atrações projeta-se como imperativo irresistível numa conjuntura em que os produtos já vem de fábrica com prazo de validade encurtado, o que alimenta o regime de substituição precoce exigido pela escalada de rentabilidade. (pg60) 

A informação assumiu a dianteira como fonte alimentadora de engrenagens indispensáveis `a hegemonia do capital. O controle da informação, estocada, processada, em andamento ou atualização, situa-se no vértice de estruturas de dominação, e não apenas no âmbito econômico-fincanceiro, pois está correlacionado também `a dimensão geopolítica. (pg.60) 

Não é casual a lucratividade obtida por agências de noticias transnacionais. Eles coletam, selecionam e fornecem, a peso de ouro, uma quantidade ininterrupta de informações especializadas, que ajudam a instruir as intervenções imediatas de traders, corretores e analistas. Quanto mais turbulências na economia globalizada, mais os especialistas

recorrem aos terminais de cotação e `as análises de tendências. (pg61) 

Os processos de verificação, intervenção e atualização passam a ser anywhere (usados ou acessados em qualquer lugar), anytime (usados ou acessados em qualquer tempo) e nomatter (produtos e serviços imateriais, compostos por bits). Acontecem, desmancham-se no ar e recompõem-se com desenvoltura. 

Vida em trânsito, objetos móveis 

As tecnologias digitais favorecem a convergência de redes e plataformas numa linguagem única, forjando a base para a hibridação das infraestruturas de transmissão de dados, imagens e sons. (pg.62) 

A convergência materializa-se na comunicação sem fio, ultrarápido e flexível, deslocalizada e desterritorializada. A terceira geração digital de telefonia móvel (3G) baseia-se em redes avançadas de banda larga que suportam, alem dos serviços convencionais de voz e mensagens, SMS, acesso à Internet, áudio, vídeo e recepção de televisão. O celular converte-se em dispositivo multimídia, podendo ser utilizado como câmera e filamadora digital, player de músicas, arquivos sonoros, rádio AM-FM, navegador na Web como correio eletrônico, mensagens e noticiários em tempo rela, horóscopo, jogos eletrônicos, mapas e filmes, além de capturar em enviar mensagens e acessar redes sociais. (pg.63,64) 

O celular tornou-se o eixo gravitacional da “sociedade em rede móvel” – expressão utilizada por Manuel Castells (2007: 17) para designar um tipo de sociedade cujas estruturas e práticas sociais se organizam em torno de redes microeletrônicas de informação e comunicação. (pg.64) 

Com mais de 3 bilhões de usuários em todos os continentes, a alta rentabilidade da telefonia móvel é simétrica à sua integração ao entretenimento e as marcas, bem como `a expansão da publicidade no setor, que deverá movimentar US$ 11,5 bilhões até 2012. (pg.66) 

No ambiente generalizado de acesso e contato em que estamos imersos, Marinho qualifica a mobilidade como o “mantra|” contemporâneo [...] objetos, idéias e corpos passam a legitimar-se não somente por suas funções e atributos, mas também por petencializar deslocamentos e trocas virtuais. E ainda preenchem antigos “tempos mortos”: a qualquer momento, podemos romper o ócio, a inércia ou a imobilidade imposta por circunstancias teclando para falar com alguém, ou para ler, ouvir, assistir e descobrir coisas nas microtelas. (pg.67) 

Em várias situações o celular facilita bastante a comunicação, a sociabilidade e até certos tipos de ativismo [...] devemos ter cautela para não subestimar o fato de que o celular também acirra a vontade de controlar tempos variáveis com continuidades que nos aferram ao que é desfrutável ou nos mantêm vulneráveis a intromissões nas nossas antigas cidades intimas [...] (pg.67) 

O frenesi mercantil 

A intensificação da comunicação móvel ajusta-se ao atual estágio do capitalismo, cujo pilar de sustentação é a capacidade de acumulação financeira numa economia de interconexões eletrônicas. O sistema tecnológico incorpora à lógica hegemônica sua vocação expansiva, ancorada na contínua integração de fluxos de informação de altíssima velocidade. (pg.68) 

Na moldura de midiatização da vida social, caracterizada por mediações e interações baseadas em dispositivos teleinformacionais, os ramos culturais estão imersos na lógica do lucro que preside a expansão da forma-mercadoria a todos os campos da vida social. (pg.68) 

A integridade dos valores simbólicos é afetada pela imposição do valor de troca, em muitos casos esvaziando os produtos culturais de suas qualidades artísticas. (pg. 68) 

A conversão da cultura em economia e da economia em cultura é um dos alicerces do capitalismo atual [...] Cultura é negócio, e produtos são feitos para o mercado. (pg.69) 

Na lógica da ‘coisificação’, a intenção final é transformar objetos de todos os tipos em mercadorias. Se esses objetos são estrelas de cinema, sentimentos ou experiência política não importa”. (pg.69) 

Ao cancelar a diferença entre a produção artística e a produção geral de mercadorias, a mercantilização arrasta para o consumo de massa e para o comércio de significados em larga escala um conjunto de manifestações até então tidas como elitistas (exposições, ciclos de conferências, música erudita) e que agora se projetam nas agendas midiáticas como megaeventos, cobertas pela publicidade e pelos esquemas promocionais de circulação. (pg.69) 

Mostra itinerantes de Monet, Rodin, Cezanne e Picasso distinguem-se como chamariz para vultosas receitas que começam nas bilheterias e prolongam-se na venda de catálogos, reproduções de quadros, pôsteres, calendários, camisetas, etc. (pg.68) 

O exemplo dos museus ilustra como a lógica da mercantilização costuma ser indiferente ao valor cultural intrínseco dos bens simbólicos; o interesse primordial é a sua conversão ao estatuto de mercadoria, e por isso mesmo não foge à exigência capitalista de remunerar o capital investido. (pg.71) 

A produção e a troca de mercadorias tornam-se fins em si mesmas; desenvolvem-se segundo um mecanismo de cifras rígidas e autônomas, que pode ser ‘perturbado’ pelos homens, mas não por eles determinado e vivificado. (pg.71) 

Para além da industrialização da produção simbólica propriamente dita, o cálculo da cultura mercantilizada em âmbito transnacional leva em conta a irradiação midiática do esporte. Apreciamos o culto extraterritorial aos astros da liga profissional de basquete dos Estados Unidos. (pg. 72) 

Os negócios esportivos movimentam mais de US$ 1 trilhão (US$ 200 bilhões somente dos Estados Unidos). (pg.73) 

As competições transformam-se em nicho econômico no mercado mundial, cada vez mais atrelado ao poder de divulgação televisiva. (pg.73) 

Inovação e saturação 

Karl Marx já  havia notado, na segunda metade do século XIX, que quanto mais violenta for a competição, mais o mercado tenderá para o monopólio (ou oligopólio), pois, na guerra de todos contra todos, os gigantes eliminam as empresas mais fracas.  (pg. 75) 

Na últimas décadas, a desregulamentação dos mercados produziu uma concentração de capital e controles monopólicos sem precedentes, beneficiada por legislações omissas ou complacentes diante da força esmagadora de monopólios e fusões. Por exemplo, a concorrência das indústrias culturais … (pg.75) 

Conglomerados asiáticos (na fabricação de equipamentos e fitas) e norte-americanos (na produção de fitas pré-gravadas) dominam as indústrias de vídeo e DVD. Dez empresas japonesas, entre elas Sony, Hitachi, Fuji e Matsushita, são responsáveis por 90% das vendas de videogames. (pg.76) 

O ciclo de concentração monopólica está intimamente associado à diversificação produtiva apoiada em tecnologias de ponta e a capacidade de inovar em prazos  curtíssimos, de forma a assegurar reposições constantes que geram a “obsolescência programada” das mercadorias em circulação (Bauman, 2007) (pg.76) 

Consultores especializados em dividendos competitivos, como Robert Tucker e Gary Hamel, partem das teses de Schumpeter para classificar a inovação como “combustível para o crescimento das empresas” e como estratégia eficaz para que uma organização possa sobrepujar a concorrente na busca de “receitas de primeira linha”. (pg. 77) 

A inovação converte-se em requisito valioso numa época em que os bens disponíveis criam problemas e expectativas que somente se equacionam mediante novas demandas e soluções tecnológicas. (pg.77) 

Metodologias de análise psicológica possibilitam aos estrategistas de marketing desvendar inclinações e manter alta a predisposição das pessoas para comprar, experimentar e fidelizar. (pg.80) 

O crescimento exponencial de usurários está na base da corrida comercial para as redes sociais (MySpace, Facebook, Orkut, Youtube, Hi5, Twitter) … (pg.81) 

As redes sociais já estão entre as marcas mais supervalorizadas do mundo (só a Facebook vale US$ 15 bilhões). 

Não por acaso, The Economist batizou de “santo graal” do mundo virtual a interação entre marcas e usuários nos ambientes de compartilhamento de redes sociais. (pg.83) 

Margens de diversidade 

O quadro acima realça a urgência da crítica à cultura tecnológica que respalda a apoteose da velocidade e a tirania do dinheiro e da informação [...] A abundância ao nosso redor está muito longe de ser igualitária. Na selva de desigualdades em que vivemos, conexões generalizadas dependem de estágios tecnológicos e condições aquisitivas marcadamente desiguais. (pg. 84) 

A explosão inovadora não representa um bem comum, nem uma conquista repartida pela maioria das sociedades. (pg. 84) 

“Quem não está conectado será excluído de maneira cada vez mais intensa e variada. A brecha (digital) acirra os contrastes entre regiões, países, e grupos sociais. Países menos digitalizados vão sendo confinados ao quintal da globalização, em termos de intercâmbio cultural, protagonismo político, crescimento econômico e, em consequência de tudo isso, bem-estar social. Inversamente, quanto mais se reduz a brecha, mais se avança na integração social, democracia comunicacional e igualdade de oportunidades produtivas, tanto dentro dos países quanto entre eles” (Hopenhayn, 2002: 328) (pg.85) 

Enquanto nos Estados Unidos quase 90 milhões de pessoas têm banda larga e na Grã-Bretanha 70% das escolas secundárias contam com a tecnologia wi-fi, na África os usuários não passam de 3 milhões (menos de 1% da população). (pg.86) 

Quando ampliamos o campo de análise, verificamos que, se de um lado há uma multiplicação de oferta de informações e diversão, de outro há um processo perverso de centralização das fontes emissoras dos conteúdos multimídias e de geração de valor mercantil ampliado, para alimentar os padrões de acumulação e de rentabilidade das grandes empresas do setor. (pg.87) 

Em face da concentração monopólica e transnacional das indústrias culturais, a possibilidade de interferência do público (ou de frações dele) nas programações depende não somente da capacidade criativa e reativa dos indivíduos, como também de direitos coletivos e controles sociais sobre as produção e a circulação de informações e entretenimento (Canclini, 2004: 148). (pg.88) 

Diversidade nada tem a ver com a busca de status em compras compulsivas. (pg. 88) 

Diversidade pressupõe revitalizar manifestações do contraditório, confrontar pontos de vista e estimular trocas horizontais entre as culturas de povos, cidades e países. Diversidade se assegura, principalmente com políticas publicas que valorizem os direitos da cidadania e mecanismos democráticos de regulação, de universalização de acessos, de proteção do patrimônio cultural intangível e de apoio a usos comunitários e educativos das tecnologias. (pg.89) 

Diversidade se alcança também com o acesso do conjunto da sociedade a múltiplas abordagens sobre os acontecimentos. (pg. 89). 

 Parte II Governos progressistas e políticas de comunicação na América Latina

Travessia para o pós-neoliberalismo

O marco inicial do processo de lutas contra-hegemônicas foi a insurreição da guerrilha zapatista em Chiapas, sul do México, em 1994, meses depois da assinatura do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). (pg. 99)

A Unesco, vinculada à Organização das Nações Unidas, calcula que ainda existem 37 milhões de analfabetos no continente, e apenas 32% dos habitantes conseguem chegar à universidade. (pg100)

No Brasil, Lula preservou a política econômica neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, adotou programas assistenciais como o Bolsa Família e vem conseguindo elevar o poder aquisitivo de parte da população de baixa renda. (pg. 106)

Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea) divulgado em 2008, as desigualdades no Brasil persistem: os 10% mais ricos concentram 75,4% da riqueza do país; e os 10% mais pobres comprometem 33% de seus rendimentos em impostos. (pg. 107)

Examinando o quadro latino-americano como um todo Boaventura de Sousa Santos destaca o surgimento de uma lógica alternativa à do Estado capitalista neoliberal, com maior sensibilidade às questões sociais. (pg. 108)

Sob o signo da concentração simbólica

As quatro maiores empresas de mídia e entretenimento da América Latina (Globo do Brasil, Televisa do México, Cisneros da Venezuela, Clarín da Argentina) retêm 60% do faturamento total dos mercados e das audiências. Brasil, México e Argentina reúnem mais da metade dos jornais e das emissoras de rádio e televisão e 75% das salas de cinema da região. (pg. 112)

Conforme o Mapa das Desigualdades Digitais, no Brasil apenas 2% da população mais pobre têm acesso regular à Internet, e os 10% mais ricos usufruem até cinco vezes mais dos benefícios da rede do que os 40% mais pobres da população. (pg. 114)

Entre as distorções mais graves na economia da comunicação, Guilhermo Mastrini e Martín Becerra (2006) apontam as políticas de preços predatórias destinadas a eliminar ou a restringir severamente a concorrência, e os controles oligopólios sobre produção, distribuição e difusão dos conteúdos. (pg. 115)

Formas possíveis de intervenção governamental

Está em questão valorizar a produção informativa, as artes e o patrimônio cultural como partes da continuidade identitária que permite a expressão das diferenças e a participação individual e coletiva na vida social. (pg. 117)

Cabe ao Estado um papel regulador, o mesmo tempo harmonizando anseios e zelando pelos direitos à informação e à diversidade cultural. (pg. 119)

Reestruturação da comunicação estatal

Chávez criou o mais abrangente esquema de comunicação estatal da região. Quatro canais televisivos, duas cadeias radiofônicas, Agência Venezolana de Notícias, Imprensa Nacional, Fundacíon Vicente Emilio Sojo e Centro Nacional de Tecnologias de Información. (pg. 120)

No Equador, o canal Ecuador TV, inaugurado em dezembro de 2007 é a primeira emissora estatal da história do país. (pg. 123)

Lula criou a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), aprovada pelo Congresso em dezembro de 2007. (pg. 124)

Outras televisões, outras dinâmicas produtivas

Fazer prevalecer as demandas públicas sobre as ambições privadas; respeitar a diversidade informativa e cultural, reservando parte ponderável das programações à abordagem de acontecimentos e temáticas geralmente subestimados pela mídia comercial; estimular pluralidade no telejornalismo; e divulgar manifestações artísticas que não seguem parâmetros mercadológicos (pg. 126)

Mais de 80% da programação da Telesur têm conteúdo informativo. Os 20% restantes são preenchidos por filmes e documentários independentes produzidos n região, muitos deles exibidos pela primeira vez em televisão, pois não tinham vez nas emissoras comerciais. (pg.127)

A Vive assim define seus focos editoriais. “Os Protagonistas são os membros da comunidade, o cidadão comum, os milhões de venezuelanos e latino-americanos invisíveis para o imperialismo e seus meios de dominação cultural. Na programação é possível conhecer a realidade, a vida e a luta de nossos afrodescendentes, indígenas, camponeses, operários, mulheres, homens, jovens e meninos. (pg. 134)

A Vive encarna, assim, um modelo híbrido de televisão educativa: a gestão, o planejamento e as diretrizes seguem orientação governamental, mas a programação leva em conta sugestões discutidas com organizações comunitárias. (pg. 137)

Redefinição de marcos regulatórios

Estabelecer marcos regulatórios democráticos significa dotar os países de mecanismos legais para frear a concentração monopólica e a mercantilização, bem como atualizar normas para a concessão e a fiscalização das outorgas de rádio e televisão. (pg. 141)

O Equador é um dos países que mais avançou em termos de legislação antimonopólica. (pg. 141)

Ainda no Equador, em 2008, o Conselho Nacional de Radiodifusão e Televisão Conartel alterou a Resolução de 2007, para introduzir dispositivos antimonopólicos para futuras outorgas. (pg 143)

Em dezembro de 2004, a Assembleia Nacional da Venezuela sancionou a Lei de Responsabilidade Social em Rádio e Televisão. (pg. 144)

Na Bolívia, a Assembleia Constituinte em 2007 assegura a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e o direito à comunicação a todos os cidadãos. (pg. 146)

Bachelet reforçou autonomia do Conselho Nacional de Televisão aberta. (pg. 146)

Ativismo em rede: comunicação virtual e contra-hegemonia

Tanto no âmbito físico quanto no virtual, veículos alternativos repõem (…) a circulação social de conteúdos contra-hegemônicos. (…) são organismos coletivos, de natureza voluntária e autônoma, que expressam convicções sobre a necessidade de democratização da vida coletiva e de maior pluralismo, intervindo nas batalhas hegemônicas em franca oposição ao establishment. (p. 232)

Esse tipo de projeto, portanto, não se esgota no plano comunicacional e estabelece vínculos com o ativismo político, visto que a produção informativa tem afinidades programáticas e entrecruzamentos com o conjunto mais amplo dos organismos reinvidicantes da sociedade civil. Em tal prisma, a comunicação é alternativa porque se estrutura para o trabalho político-ideológico, contrapropões conteúdos críticos, associa-se às mobilizações anticapitalistas, tem métodos colaborativos de gestão e formas não mercantis de financiamento. (p. 233)

(…) as redes trazem em si uma espécie de antivírus à sua utilização exclusiva para transações financeiras e comerciais. Isto porque englobam usos individuais e sociais distintos, remetendo a padrões de sociabilidade à distância que estimulam reciprocidades e partilhas sem objetivos lucrativos ou pretensões competitivas. Graças à conectividade, instauram-se convívios por afinidades (…). Com isso, as redes podem desempenhar um papel estratégico como elemento organizativo e articulador de movimentos no seio da sociedade civil (…). (p. 240)

O sistema cooperativo contraria a obsessão capitalista de tirar proveito em trocas lucrativas, pois não utiliza a mão-de-obra com finalidades mercantis; o interesse básico é gerar, trocar e socializar ideias e conhecimentos, numa perspectiva crítica. O trabalho compartilhado recusa tanto a transformação da informação em mercadoria quanto a sujeição do fluxo informativo às lógicas comerciais. (p. 247)

Outros nós a desatar são a falta de ousadia na concepção e renovação visual das páginas, a repetição da organização editorial em seções temáticas e a linguagem calcada numa retórica excessivamente ideologizada. Uma linguagem mais coloquial e atraente poderá neutralizar o panfletarismo ou o pedagogismo (…). Quanto mais se impregnam os materiais informativos de timbres ideológicos, mais se estreitam o público-alvo e a capacidade de assimilação por audiências sem formação educacional e cultural condizente. (p. 257)

O valor do trabalho colaborativo para a unificação das forças progressistas foi ressaltado por Gramsci (…) “todo ato histórico não pode deixar de ser realizado pelo ‘homem coletivo’, isto é, pressupõe a conquista de uma unidade ‘cultural-social’ pela qual uma multiplicidade de vontades desagregadas, com fins heterogêneos, solda-se conjuntamente na busca de um mesmo fim, com base numa comum concepção do mundo.” (p. 258)

A consolidação da comunicação contra-hegemônica depende de uma série de fatores:

1. definição de estratégias que valorizem as potencialidades multimídia;

2. constante renovação visual das webmídias;

3. linguagem acessível e ousadia nas pautas;

4. inclusão de representantes de organizações da sociedade civil na gestão de redes públicas ou financiadas por estatais;

5. maior oferta de conteúdos próprios, respeitando peculiaridades locais e nacionais;

6. aumento substancial do número de usuários, o que depende da superação de entraves econômico-financeiros e tecnológicos;

7. projetos públicos de inclusão digital;

8. formação adequada para profissionais de comunicação, jornalistas e usuários;

9. simplificação de procedimentos informáticos e melhor aproveitamento de sistemas de busca na web;

10. captação de patrocínios e publicidade não-comercial;

11. defesa junto a governos progressistas da inclusão de redes e webmidias em políticas para a diversidade informativa;

12.  ampliação da infraestrutura em banda larga e do uso de tecnologia sem fio.

 

Equipe: Caio Taconni, Fábio Liberal, Julia Maia, Manuela Reis

Messianismo midiático

Já pouco confiável, o sistema de informação está atualmente sujeito a uma revolução radical com o advento do digital e da multimídia… A articulação do telefone, do televisor e do computador dá origem a uma nova máquina de comunicação, interativa, fundada nas proezas do tratamento digital. Reunindo as performances e os diversos talentos de cada meio de comunicação separado, a multimídia e a Internet criam uma ruptura que poderia acabar revolucionando todo o campo da comunicação e talvez até o campo da economia (p. 7).

O principal modelo do futuro das comunicações é o êxito − real − da Internet …  A Internet constitui um modelo de convivialidade telemática cada vez mais ameaçada pelos apetites econômicos dos grandes grupos industriais e midiáticos que estão de olho nos quase 140 milhões de usuários conectados, pessoas fascinadas com um ciberespaço imaterial. A própria imprensa escrita não pode mais estar a salvo deste furacão de ambições desencadeado pela nova utopia tecnológica (p. 8).

No grande esquema industrial concebido pelos donos das empresas de lazer, cada um constata que a informação é antes de tudo considerada como uma mercadoria, e que este caráter prevalece, de longe, sobre a missão fundamental da mídia: esclarecer e enriquecer o debate democrático (p. 8).

A supermidiatização nem sempre significa boa informação, como exemplo o caso Diana. A morte de Lady Diana e de seu amante Dodi Al-Fayed, por acidente de carro, em Paris, no dia 31 de agosto de 1997, deu lugar ao mais fenomenal desencadeamento informacional da história recente da mídia. Imprensa escrita − cotidiana e periódica −, rádio e televisão consagraram a este evento mais lugar do que a qualquer outro referente a uma pessoa física em toda a história dos meios de comunicação de massa … Jamais um acontecimento conseguiu reunir de tal forma o mundo inteiro (p. 9).

De fato, nem o assassinato de John Kennedy, nem o atentado contra João Paulo II − para citar apenas dois megaeventos − provocaram um furacão midiático comparável … Diana não era nada disso. Antes de sua morte trágica, ela era principalmente a vítima dos paparazzi, aqueles fotógrafos cuja profissão consiste em surpreender vedetes e celebridades na sua intimidade e cuja tarefa visa tornar público o privado, sobretudo quando se supõe que este privado deveria continuar privado. Os paparazzi são acusados de ter causado a morte de Diana… Os paparazzi não são mais do que o resultado da situação geral da mídia, uma situação dominada pelo mercado e pelo lucro (p. 10 e 11).

A imprensa people acrescenta aos fatos cotidianos uma outra dimensão: eles são vividos por seres humanos exemplares, célebres, pertencentes à lenda dourada contemporânea. Através da imprensa people , personalidades públicas, famílias reais e vedetes de todo tipo permitem ao leitor projetar-se num universo ao mesmo tempo totalmente diferente, mas também, em certos pontos, profundamente semelhante ao seu (people está sendo utilizado aqui no sentido de “grande público”) (p. 12).

Por ocasião do acidente mortal de Diana, o que aconteceu foi uma espécie de curto-circuito midiático, o repentino acesso de um personagem people de folhetim, de telenovela, ao status de personalidade digna da imprensa séria e de referência. Diana abandona o perímetro limitado e folclórico do people para entrar com a maior facilidade nos títulos principais, nobres, dos jornais da imprensa política. Pela primeira vez, Lady Di é objeto da informação principal do telejornal. Este curto-circuito passou imediatamente a toda a mídia (imprensa popular e jornais de referência, rádio, televisão) e em escala planetária (p. 13).

A mídia está sujeita a uma concorrência cada vez mais feroz; as pressões comerciais se intensificam. Muitos quadros dirigentes da mídia vêm doravante do universo empresarial e não mais do mundo jornalístico. Eles são menos sensíveis á veracidade da informação. Aos olhos deles, o news business, o mercado da informação, é antes de tudo um meio de gerar lucros (p. 15).

Dois parâmetros exercem urna influência determinante sobre a informação: o mimetismo midiático e a hiperemoção. O mimetismo é aquela febre que se apodera repentinamente da mídia (confundindo todos os suportes), impelindo-a na mais absoluta urgência, a precipitar-se para cobrir um acontecimento (seja qual for) sob pretexto de que os outros meios de comunicação − e principalmente a mídia de referência − lhe atribuam uma grande importância. Quanto mais os meios de comunicação falam de um assunto, mais se persuadem, coletivamente, de que este assunto é indispensável, central, capital, e que é preciso dar-lhe ainda mais cobertura, consagrando-lhe mais tempo, mais recursos, mais jornalistas. Tudo isto é, por cúmulo, agravado pelo fenômeno da Internet (p. 20 e 21).

A hiperemoção como tal − que é a outra figura característica da superinformação − sempre existiu na mídia, mas permanecia como especifica dos jornais de uma certa imprensa demagógica que manejavam facilmente com o sensacional, o espetacular e o choque emocional. Ao invés, a mídia de referência apostava no rigor, na frieza conceitual, banindo o quanto possível o pathos para se manter estritamente nos fatos, nos dados, nos atos.  Isto começou a modificar-se aos poucos sob a influência da mídia de informação dominante que é a televisão. Uma espécie de nova equação informacional que poderia ser formulada desta maneira: “Se a emoção que vocês sentem ao ver o telejornal é verdadeira, a informação é verdadeira”. Isto deu credibilidade à idéia de que a informação − não importa que informação − sempre é simplificável, redutível, capaz de converter-se em espetáculo de massa e decompor-se num certo número de segmentos-emoções (p. 21 e 22).

A principal conseqüência deste mimetismo midiático e deste tratamento pela hiperemoção é que o mundo parece pronto, a partir de agora, para o aparecimento de um “messias midiático” (p. 23).

A era da suspeita

Ceticismo. Desconfiança. Descrença. Eis os sentimentos dominantes dos cidadãos em relação à mídia. Confusamente, cada um sente muito bem que alguma coisa não vai bem no funcionamento geral do sistema informacional. Ninguém nega a indispensável função da comunicação de massa numa democracia, pelo contrário. A informação continua sendo essencial ao bom andamento da sociedade, e sabe-se que não há democracia possível sem uma boa rede de comunicação e sem o máximo de informações livres. Todo mundo está de fato convencido de que é graças à informação que o ser humano vive como um ser livre. E, não obstante, a suspeita pesa sobre a mídia (p. 24).

Esta primeira era da desconfiança, essencialmente política, acabou em muitos países com o fim do controle direto exercido pelo governo sobre a informação televisada, e com a criação de instâncias de regulamentação do audiovisual. A segunda era da suspeita não teve o mesmo caráter. A preocupação atual dos cidadãos se funda na convicção de que o sistema informacional em si mesmo não é confiável, que existem falhas, que ele dá provas de sua incompetência e que pode apresentar enormes mentiras como verdades. Nos dias de hoje, o redator-chefe ou o diretor de um jornal não perguntam mais se uma informação é verdadeira, mas se ela é interessante. Se for constatado que ela não é interessante, não é publicada (p. 25).

Encontramo-nos numa virada da história da informação. No seio da mídia, a televisão assumiu o poder. Ela não é apenas a primeira mídia de lazer e de diversão, mas também, agora, a primeira mídia de informação. Ainda há pouco tempo, o telejornal (TJ) da noite era organizado à base das informações que apareciam, no mesmo dia, na imprensa escrita. Agora, é o inverso: é a televisão que dita a norma, é ela que impõe sua ordem e obriga os outros meios, em particular a imprensa escrita, a segui-la (p. 26).

Tomando a dianteira na hierarquia da mídia, a televisão impõe aos outros meios de informação suas próprias perversões, em primeiro lugar com seu fascínio pela imagem. E com esta idéia básica: só o visível merece informação; o que não é visível e não tem imagem não é televisável, portanto não existe midiaticamente. Os eventos produtores de imagens fortes − violências, guerras, catástrofes, sofrimentos de todo tipo − tornam portanto a preeminência na atualidade: eles se impõem aos outros assuntos mesmo que, em termos absolutos, sua importância seja secundária (p. 27).

Pensa-se que a imagem é rainha absoluta. Ela vale mil palavras. Esta lei básica da informação moderna não é ignorada pelos poderes políticos que tentam usá-la em seu proveito. Assim, a propósito de questões delicadas e comprometedoras, eles vigiam com todo cuidado para que nenhuma imagem circule; trata-se aqui, nem mais nem menos, de uma forma de censura (p. 27).  

Desde sempre, o conceito de censura é assimilado ao poder autoritário, do qual ela é, de fato, um elemento constitutivo importante. Censura significa supressão, interdição, proibição, corte e retenção de informação. Viver num país livre é viver sob um regime político que não pratica esta forma de censura e que, ao contrário, respeita o direito de expressão, de imprensa, de opinião, de associação, de debate, de discussão (p. 28).

Uma nova forma de censura se estabeleceu sub-repticiamente, uma censura que poderíamos chamar “censura democrática”. Esta, em oposição à censura autocrática, não se funda mais na supressão, mas no excesso de informações (p. 28 e 29).

Duas lógicas se defrontam: a do “tudo imagem”, exigida pela televisão, e a do “zero imagem”, defendida pelos poderes. A primeira leva a abusos cada vez mais freqüentes: a necessidade imperativa de dispor de imagens leva com efeito a elaborar falsidades ou a recorrer aos arquivos de modo muito impreciso. Quanto à outra lógica, a do “zero imagem”, seria ela a da censura no sentido clássico do termo? Não se pode realmente afirmá-lo, pois num Estado de direito o estatuto da imagem é regulamentado − não se pode filmar o que quer que seja, não importa como. São necessárias autorizações para penetrar com câmeras em hospitais, prisões, casernas, comissariados, asilos… − é que aqui se trata do respeito pela pessoa humana. (p. 29).

Este confronto de lógicas contraditórias acontece num momento em que a televisão, em razão de um salto tecnológico importante, está em condições de apresentar, ao vivo e instantaneamente, imagens de qualquer ponto do planeta (p. 30).

Também isto compreenderam os poderes que se aproveitam da distração da aldeia planetária, ocupada em seguir com paixão um grande “drama” da informação, para desviar a atenção do público de alguma ação passível de crítica. É o que se chama “efeito paravento”: um evento serve para esconder outro; a informação oculta a informação (p. 31).

Aliás, a informação principal é exatamente esta: a capacidade de conectar o mundo ao máximo, pois, afinal de contas, esta “televisiofonia” soa oca. Além disso, multiplicando as conexões, ela obriga os correspondentes a permanecer perto das antenas móveis, impedindo-os de ir em busca de informações, o que deveria ser sua missão principal. Trata-se de demonstrar a qualquer preço que o sistema funciona, que a máquina “comunica”, e não que ela informa (p. 32).

Conseqüência desta nova situação, deste fascínio pelo direto, pelo “ao vivo”, pelo tempo real: a mudança de modelo de representação do telejornal. Este espetáculo estruturado como urna ficção sempre funcionou como uma dramaturgia de tipo hollywoodiano. Todavia, recentemente, este modelo foi substituído por um outro, o do jornalismo esportivo. A vida é considerada como um jogo e, neste caso, nada conta mais do que as imagens do acontecimento sobre o qual não há, realmente, grande coisa a dizer, como num jogo. O comentário se restringe ao mínimo e o papel do apresentador é discreto. O jornalista se limita a acrescentar um mínimo de informações − pois a força da imagem deve prevalecer sobre tudo −. Eis no que a televisão acredita hoje: que ela tem o poder de mostrar “a história acontecendo”, e que mostrar é fazer compreender de um só e mesmo golpe (p. 32 e 33).

A principal conseqüência disso é a idéia, cada vez mais espalhada pelos detentores da informação “contínua e em tempo real”, de que não importa o que vale ou não um jornalista (p. 34).

Mas as revoluções induzidas por essas novas formas de jornalismo vão muito além ainda e explicam que o telespectador continua confundido e desorientado. Pois o que é transformado é a instância de credibilização do sistema de informação televisual. Na história da informação audiovisual houve até o presente dois modos de credibilização. Primeiro, as atualidades cinematográficas: cada semana, as salas de cinema apresentavam um apanhado da atualidade nacional e mundial em imagens e sons. A credibilidade do discurso se baseava então no comentário off. Ele dizia o que se devia ver e fixava o sentido das imagens; tornava este sentido aceitável, evidente. O segundo modelo, o do telejornal de tipo hollywoodiano, se baseava em elementos estritamente contrários. A voz que falava não era mais anônima, tinha um rosto e um nome; ela era perfeitamente identificada, era a do apresentador que falava ao telespectador. Estabelecia-se uma relação de confiança, de conhecimento − pelo menos virtual − entre o apresentador e o telespectador, que credibilizava a informação segundo a idéia de que uma pessoa familiar que olha nos seus olhos não pode mentir (p. 34 e 35).

No dispositivo contemporâneo, que constitui o terceiro modelo de credibilização, a figura do apresentador se atenua. As passagens pelo estúdio central são fugazes, pois ele quase só funciona como uma plataforma giratória, um centro de triagem, uma encruzilhada. No final das contas, nada é mais importante que a rede, a malhagem dos correspondentes, a multiplicação das conexões, em suma, o piscar permanente do sistema que ocupa doravante o lugar central (p. 35).

Mas, por ora, os telespectadores ainda não têm referências para estabelecer, com um mecanismo corno este, a relação de confiança indispensável à credibilidade do discurso. O que é certo, é que nada se assemelha à voz abstrata da informação, nem à presença sorridente de um apresentador. Para o cidadão, isto conecta, isto liga, isto circula em redes, em suma, isto “comunica”, mas ele sente confusamente que isto o exclui (p. 36).

A televisão não é uma máquina de produzir a informação, mas de reproduzir acontecimentos, fatos. O objetivo não é fazer-nos compreender uma situação, mas fazer-nos assistir a uma aventura ou desventura. Ao mal-estar do político, gangrenado pelos “casos” e pela deflação das ideologias, soma-se há algum tempo a desconfiança e a repulsa em relação aos jornalistas e à mídia. O jornalismo, enquanto “quarto poder”, era apresentado como um recurso possível contra os abusos dos três outros poderes (executivo, legislativo e judiciário), uma garantia para os cidadãos de um verdadeiro controle democrático (p. 36).

No curso dos anos seguintes, o jornalista foi verdadeiramente apresentado como o “herói positivo” em ficções que pertenciam a uma corrente que se poderia chamar “realismo democrático”. É fácil compreender então que hoje eles caem do alto, tendo que enfrentar os sarcasmos e a desconfiança dos cidadãos (p. 37).

Se o público sente muito bem que de uma informação de qualidade depende sua maior ou menor participação na vida cívica − e consequentemente a qualidade da democracia − nem por isso deixou-se embalar pela lisonja da televisão que lhe prometia informá-lo divertindo-o e apresentando-lhe um espetáculo cheio de ressaltos, apaixonante como um filme de aventuras. Esta contradição inicial se resolve finalmente pela consciência atual que esses cidadãos têm do perigo induzido por uma informação sedutora, que segue, até o paroxismo, a lógica do suspense e do espetáculo. Eles descobrem que informar-se é cansativo e que este é o preço da democracia (p. 38).

Imprensa, poderes e democracia

O conflito entre a imprensa e o poder é urna questão da atualidade, mas toma uma dimensão inédita hoje, porque o poder não é mais identificado só ao poder político (o qual, além disso, vê suas prerrogativas roídas pela ascensão do poder econômico e financeiro) e porque a imprensa, os meios de comunicação de massas não se encontram mais, automaticamente, em relação de dependência com o poder político (p. 39).

E, neste contexto, o que dizer da imprensa, da informação, que eram consideradas por tanto tempo como o “quarto poder”, em oposição aos três poderes tradicionais − legislativo, executivo, judiciário − definidos por Montesquieu? Quarto poder que tinha por missão cívica julgar e aferir o funcionamento dos três outros… Pode-se ainda qualificá-lo deste modo? (p. 39 e 40).

Antes de tudo, existe uma espécie de confusão entre a mídia dominante e o poder político, a ponto de criar nos cidadãos a dúvida se a função crítica do “quarto poder” ainda é cumprida. Na realidade, o primeiro poder é hoje claramente exercido pela economia. O segundo (cuja imbricação com o primeiro se mostra muito forte) é certamente midiático − instrumento de influência, de ação e de decisão incontestável − de modo que o poder político só vem em terceiro lugar (p. 40).

As sondagens e pesquisas mostram muito bem a emergência, há alguns anos, entre os cidadãos, de uma desconfiança, de uma distância crítica com relação a certos meios de comunicação. A imprensa escrita e audiovisual é dominada por um jornalismo de reverência, por grupos industriais e financeiros, por um pensamento de mercado, por redes de conivência. Um pequeno grupo de jornalistas onipresentes impõe sua definição da informação-mercadoria a uma profissão cada vez mais fragilizada pelo medo do desemprego. Eles estão a serviço dos interesses dos donos do mundo. São os novos cães de guarda (p. 40 e 41).

Esta desconfiança em relação à mídia em seu conjunto é relativamente nova. Estudando a evolução observa-se que, no final dos anos 80, esta desconfiança não existia globalmente. Aliás, há pouco tempo, creditava-se à imprensa uma capacidade bastante espetacular de revelar as disfunções da política. A imprensa era não só capaz de radicalidade em sua vontade de denunciar os abusos, de dizer a verdade ou de fazer criticas aos governos, mas também de respeito em relação a uma certa ética profissional (p. 41 e 42).

Por que esta nobre concepção do jornalismo ruiu? Considerações de diversas ordens intervêm, algumas tecnológicas, outras políticas, econômicas e também retóricas. Na nova concepção emergente da informação, um conceito se tornou cada vez mais importante e cada vez mais inequívoco: o de verdade (p. 43).

A verdade estaria na realidade do corpo virtual que vejo morrer na tela ou na materialidade das lágrimas que esta visão provoca em mim? Em todo caso, a ambigüidade é bem real: facilmente se pensa doravante que, como as lágrimas são verdadeiras, o acontecimento que lhes dá origem também é. E esta confusão criada pela emoção é tão incontrolável como a própria emoção (p. 45).

Se, a propósito de um acontecimento, a imprensa, a rádio e a televisão dizem que alguma coisa é verdadeira, será estabelecido que aquilo é verdadeiro. Mesmo que seja falso. Porque a partir de agora é verdadeiro o que o conjunto da mídia acredita como tal. Ora, o único meio de que dispõe um cidadão para verificar se uma informação é verdadeira é confrontar os discursos dos diferentes meios de comunicação. Então, se todos afirmam a mesma coisa, não resta mais do que admitir esse discurso único… (p. 45)

A nova ideologia da informação contínua e em tempo real adotada por algumas rádios e numerosas emissoras de televisão, é a idéia de que há câmeras por toda parte e que qualquer coisa que aconteça no mundo elas o registrarão para mostrá-la instantaneamente ao público. Com seu corolário, é claro, de aquilo que não for registrado não é importante. Esses princípios de funcionamento da teleinformação tomam muito difícil a articulação da equação: informação = liberdade = democracia. Pois, como diz Paul Vinho: ‘A revolução da informação instantânea é também a revolução da denúncia. Entretanto, não é por fatalidade que a informação seja desta natureza − uma informação-denúncia-espetáculo − em nossas sociedades democráticas, como também não existe urna solução única de substituição que seria a informação de propaganda. Um discurso de propaganda é um discurso que tenta, criando fatos, ou então ocultando-os, construir um tipo de verdade falsa (p. 47 e 48).

Propriamente falando, o discurso de propaganda é um discurso de censura, mas a censura, em compensação, não é necessariamente da ordem da propaganda. Esta consiste em suprimir, amputar, proibir um certo número de aspectos dos fatos, ou mesmo o conjunto dos fatos, em ocultá-los, em escondê-los. Se a censura ainda existe sob esta forma nos regimes autocráticos e nas ditaduras, ela funciona, como se sabe, de uma outra maneira nos países desenvolvidos, aparentemente democráticos. Neles encontramos muito poucos exemplos de uma censura primária que venha ocultar, cortar, suprimir, proibir fatos. Nem se proíbe aos jornalistas de dizer isto ou aquilo. Também não se proíbe os jornais. A censura não funciona assim, o que não quer dizer que ela não existe mais. Ela se baseia simplesmente em outros critérios, mais complexos, econômicos, comerciais, ou contrários àqueles da censura autoritária. Como se oculta a informação hoje em dia? Por uma adição de informações: a informação é dissimulada ou truncada porque há informação em abundância para consumir. E sequer se chega a perceber aquela que falta. Pois uma das grandes diferenças entre o universo no qual vivemos há algumas décadas e aquele que o precedeu imediatamente, é que a informação não é mais − como foi durante séculos − urna matéria rara. Antes da era moderna, dizia-se que aquele que detinha a informação detinha o poder, entendendo-se o poder como o controle da circulação da comunicação (p. 48).

Hoje, a informação é tão superabundante como os quatro elementos − ar, água, terra e fogo – tornando-se por isso incontrolável. Eis as transformações que foram geradas não pelo desaparecimento da censura, mas por sua nova natureza (p. 49).

A isto se acrescenta aquela pratica tão comum no meio midiático, chamada “censura jornalística” pelo sociólogo Patrick Champagne, que consiste, para todo jornalista que quer normalmente fazer carreira na profissão, em não criticar as práticas criticáveis de seus colegas (p. 49).

Tudo isto cria uma espécie de tela, uma tela que oculta, opaca, que torna talvez mais difícil do que nunca, para o cidadão, a busca da informação certa. Pelo menos no sistema anterior a censura era escancarada,sabia−se que imagens e informações eram dissimuladas. Atualmente não é mais assim, isto é, a censura não é mais tão visível. Grandes esforços de reflexão são necessários para chegar a compreender sobre que mecanismos novos ela funciona. O que vai aparecer amanhã? Um outro desvio, com certeza, pois o sistema informacional é sem controle, ninguém o pilota. Por quê? Porque precisamente este tipo de informação, garantido por um grande número de jornalistas satisfeitos, dá a impressão de informar um grande público que recebe esta informação com prazer, como se fosse um divertimento (p. 50).

Ser jornalista hoje

A qualidade do trabalho dos jornalistas está em vias de regressão e, com a galopante precarização da profissão, seu status social também. Basta ver o que se tornaram as redações, tanto as dos jornais quanto as das rádios e da televisão: podemos ver celebridades que assinam os grandes editoriais ou que apresentam os telejornais, nas por traz dessas ”estrelas” se ocultam na verdade centenas de jornalistas que formam simplesmente o ”elenco de apoio” Mesmo na televisão, antes de chegar a tela, uma informação passa por dezenas de mãos, ela é cortada, fragmentada, para finalmente não ser identificada com nenhum autor. O autor desapareceu. Isto é importante porque, neste contexto, ninguém é mais diretamente responsável (p. 51 e 52).

A irrupção das novas tecnologias(informatização total, digitalização, internet) revolucionou radicalmente – talvez mais do que qualquer outra profissão – o modo tradicional de trabalhar. E isto em prazos extremamente curtos. Por outro lado, os jornalistas se preocupam com influencias e pressões exercidas sabre o conteúdo da informação, em particular com a publicidade e os anunciantes: ” Buscando novos meios de aumentar seu publico e sua renda – escreve David Shaw, jornalista do Los Angeles Times (p. 53 e 54).

Em razão da revolução econômica e da revolução tecnologia, a esfera da comunicação tem a tendencia de absorver a informação e a cultura, dando assim origem a uma única e mesma esfera global e universal: a world cultur, de inspiração americana, uma especie de comunicultura de massa planetária. A informação não consegue resistir mais do que a cultura a esta massificação. O conjunto dessas transformações justifica a necessidade de uma nova reflexão sobre a informação. Hoje, como já dissemos, informar é essencialmente ” fazer assistir um acontecimento”, mostra-lo, o que nos faz crer que o melhor modo de informar-se seria auto-informar-se (p. 59 e 60).

Uma das razoes que levam a mídia a acometer erros e a deixar-se seduzir pela mentira está na contradição permanente entre o o tempo midiático e o tempo politico. Assim como o tempo politico – como quiseram os fundadores da democracia – deve ser lento para permitir que as paixões se apazígüem e que a razão se imponha, assim o tempo midiático atinge o limite extremo da velocidade: a instantaneidade. O choque destas duas temporalidades favorece derrapagens que podem revela-se muito perigosas quando implicam considerações politicas, xenofóbicas e racistas (p. 71 e 72).

Face a todas as transformações tecnológicas com as quais nos defrontamos, devemos colocar-nos a seguinte pergunta: de que problemas atuais o jornalismo é a solução? Se conseguirmos responder, então o jornalismo jamais desaparecera (p. 76).

O que faz atualmente o valor comercial de uma informação é a quantidade de pessoas suscetíveis de se interessarem por esta informação. Ora, este numero nada tem a ver com a verdade. Um jornalista pode dizer uma importante mentira, capaz de interessar muitas pessoas, e vende-la bem caro. Ele não tem tempo de filtrar, de verificar, de comparar, porque, se perder muito tempo para faze-lo, outros colegas tratarão do assunto antes dele. E, com certeza, sua hierarquia não o perdoará. O sistema informacional começa a considerar, a pouco a pouco, que há valores importantes( instantaneidade, massificação) e valores menos importantes, isto é, menos rentáveis ( os critérios de verdade). A informação tornou-se uma mercadoria. Ela tem cada vez menos uma função cívica (p. 73 e 74).

Rumo ao fim do Telejornal?

Será que estamos assistindo á morte do telejornais? Sem duvida, pelo menos sob  forma daquelas grandes missas da noite que nos apresentam ainda, na Europa, as principais emissoras. A origem profunda desta crise deve ser buscada no próprio sistema televisual, colocado sob o reino da informação-espetáculo, onde a encenação prevalece sobre a realidade (p. 77 e 78).

A tela do televisor era, metaforicamente, a janela pela qual o cidadão podoa olhar o mundo e sua diversidade. As transmissões que dominam hoje em dia são os telefilmes, o esporte, os jogos e aqueles programas – trash TV – em que a vulgaridade e a grosseria são explicitamente reivindicadas como vínculos de comunicação fundamentais com o publico (p. 79).

A informação geral de ordem criminal (viaturas e helicópteros da policia, cadáveres, prisões de suspeitos) servem de abertura a 72% dos telejornais locais e ocupa entre 29% e 33% de sua duração. Trata-se não tanto de informar, mas de responder as expectativas do publico, de ir ao encontro da opinião da maioria, e portanto de tornar a audiência o mais ampla possível. Não existe a idéia de missão: a logica da TF1 não é apoiar um partido político, mas ter um máximo de audiência. È também a negação da informação: da meteorologia aos problemas da vida cotidiana, diz-se ao publico o que ele pensa e o que já sabe. Não é informação, é confirmação (p. 83 e 84).

Para muitos dirigentes, a conquista do poder significava, ontem ainda, o domínio dobre a televisão, ”filial do poder” e a possibilidade, fantasmática, de manipular, pelo controle das informações, a opinião publica. A fratura do antigo modelo televisual parece ter extenuado completamente este projeto, retomado agora e adaptado pelos donos de empresas para tentar influenciar por sua vez os responsáveis políticos Pois as novas leis que foram impostas as emissoras de informação – e aos telejornais em primeirissimo lugar -, as do espetáculo e da teatralização, revolucionaram verdadeiramente a relação com a realidade e a verdade, fazendo-as mudar de natureza e revertendo os pontos de referencia (p. 86).

…de que o verdadeiro dificilmente é filmável, que só o falso é estético e se presta bem a encenação. Acham que, sem duvida, o mundo é feito para ser filmado, mas que não pode filmá-lo de qualquer maneira. Que existe uma retórica do visual e leis de encenação. E que tudo o que é mostrado na TV deve curva-se a ela. E André Gazut acrescenta: ”Nenhuma imagem é inocente”. Quando a matéria visual faz falta, as emissoras não hesitam em fabricá-la artificialmente, apresentando imagens de síntese ”mais verdadeiras que as verdadeiras” (p. 90 e 91).

Pois é a transmissão direta, instantânea, que cria a ” ilusão de verdade”… Não é tanto o que vão dizer seus enviados especiais, é que estejam lá. Que estejam presentes, que se possa mostrá-los na tela, presentes no local do episodio e, se possível, antes da concorrência De fato, assim como a imprensa escrita, a TV prefere reconstruir o acontecimento e, salvo casos excepcionais, não pode mostrá-lo aos espectadores enquanto se desenrola. O ideal seria, é claro, saber onde e quando as coisas acontecerão e colocar judiciosamente as câmeras (p. 92).

O telejornal apresenta um universo onde tudo é verdadeiro, como também seu contrario(….)  A encenação toma totalmente a dianteira. Não somente na organização do discurso televisual , mas ainda no desenrolar do próprio evento. A lógica da televisão impõe-se portanto a logica da vida. A retransmissão é justa, verdadeira, é o real que é falso. Nada devia ser deixado ao acaso, tudo era dominado pela retransmissão (p. 96 e 97)

 Televisão necrófila

[…] Doravante é preciso aprender a desconfiar da televisão e das imagens que nos são apresentadas (p. 98).

A corrida ao sensacional levou-a (a televisão) à mentira e à impostura, arrastando para uma espécie de histeria coletiva o conjunto da mídia e até uma parte da classe política. Como pôde acontecer tal coisa em nossos países que se definem também como “democracias de comunicação”? (p. 99)

A invenção do falso ossário de Timisoara foi, sem dúvida, uma das principais enganações desde a invenção da televisão. Aquelas imagens tiveram um formidável impacto nos telespectadores que acompanhavam há vários dias, com paixão e fervor, os acontecimentos da “revolução romena” (p. 99).

Assim, a partir de imagens cuja autenticidade ninguém sequer sonhou averiguar, chegou-se a pensar, em nome do “direito de ingerência”, numa ação guerreira, e alguns até chegaram a exigir uma “intervenção militar soviética” (!) para derrotar os partidários de Ceausescu… (p. 101)

Ninguém se lembrou que hoje em dia a informação televisada é essencialmente um divertimento, um espetáculo. Que ela se nutre fundamentalmente de sangue, de violência e de morte. E isto mais ainda devido à concorrência desenfreada entre as emissoras que obrigam os jornalistas a buscar o sensacional a qualquer preço, a querer ser, cada um deles, o primeiro no local e a enviar de lá imagens fortes (p. 101 e 102)

“Nas condições atuais de produção – afirma Bernard Langlois – os repórteres não têm mais tempo de investigar, de refletir, de aprofundar, de colocar os fatos num contexto. Isto por causa do progresso das técnicas de comunicação, das transmissões, dos satélites… Agora, tudo acontece muito rápido e mais depressa ainda por causa do peso e dos efeitos atrativos da televisão. […] Essas condições fazem com que os jornalistas não sejam forçosamente responsáveis; eles não têm escolha. E chega-se a este paradoxo: quanto mais se comunica, menos se informa, portanto mais se desinforma.” (p. 102)

Embora o número de mortos tenha sido duas vezes maior no Panamá (cerca de duas mil pessoas, na maioria civis), por que ninguém falou de “genocídio panamenho”, nem de “ossários”? Porque o exército americano não permitiu que os jornalistas filmassem as cenas de guerra. […] Ora, uma guerra “invisível” não impressiona nem revolta a opinião pública (p. 103).

É assim que, inconscientemente, a mídia encontrava, por ocasião dos acontecimentos na Romênia, os grandes arquétipos de um mito político clássico, o da conspiração (p. 105)

“[…] Será que o consumismo, aquele sonho imenso da humanidade, podia aniquilar-se sem um fracasso que lembrasse seu monstruoso poder?” A ocasião era portanto fatal, faltavam imagens trágicas (p. 106).

Mesmo sendo mentirosas, essas imagens necrófilas da Romênia eram lógicas. E vinham ratificar a função da televisão num mundo em que a tendência é substituir a realidade por sua encenação (p. 107).

Três mitos da mídia

A vida cotidiana sofreu grandes mutações em muitos países, quer pelo medo de eventuais atentados, quer pelo desejo de acompanhar moralmente as forças engajadas no local. A economia, os transportes e o lazer foram fortemente sacudidos, a tal ponto que os observadores da vida política qualificam hoje esta crise de “articulação entre duas eras” (p. 108).

“O mito – escreve Roland Barthes – não se define pelo objeto de sua mensagem, mas pelo modo como o profere. (…) Então, tudo pode ser mito? Sim, creio eu, pois o universo é infinitamente sugestivo. Cada objeto do mundo pode passar de uma existência fechada, muda, a um estado oral, aberto à apropriação da sociedade, pois nenhuma lei, natural ou não, proíbe falar das coisas. (…) Evidentemente, nem tudo é dito ao mesmo tempo: alguns objetos se tornam presa da palavra mítica durante um momento, desaparecem e outras tomam seu lugar, acedem ao mito.(…) Longínqua ou não, a mitologia só pode ter um fundamento histórico, pois o mito é uma palavra escolhida pela história; não poderia surgir da natureza’ das coisas Assim, apoiando-se na história contemporânea, uma “história do direto”, por ocasião da guerra do Golfo, a mídia nos apresentou três objetos como mitos do fim de um tempo… (p. 110)

Pois descrever “diretamente e em tempo real” um evento não permite absolutamente ao jornalista tomar distância, dar-se o tempo da reflexão e da verificação, nem compreender simplesmente o que se passa sob seus olhos… Ele hesita, interpreta, enfeita e, nolens volens, acaba finalmente enganando os telespectadores. Impor à informação a velocidade da luz é confundir informação com atualidade, jornalismo com testemunho. Isto levou a graves equívocos. “A guerra do Golfo – afirma Paul Vinho – marca o começo de uma pergunta decisiva sobre o reino da informação imediata: pode-se democratizar a ubiqüidade, a instantaneidade, a imediatidade que são justamente os apanágios do divino, em outras palavras, da autocracía?” (p. 111)

A máscara contra gás suscitou um singular pavor, simbolizando a ameaça da abolição do indivíduo moderno, para remetê-lo ao lado indistinto das multidões, das massas sem rosto, sem vontade, que obedecem às ordens de uma hierarquia longínqua e onisciente. Que o uso da máscara se tenha tornado obrigatório por causa da ameaça de um regime autocrático e monopartidarista (o de Saddam Hussem) confirmou a idéia de que era exatamente um objeto vindo do passado, anterior à democracia. Mas, ao mesmo tempo, a máscara não deixou de exercer um fascínio. Cada um podia ver nela o que ameaça em democracia que se tornaram orwellianas, que a hipertrofia da mídia faz implodir: o rosto anônimo e múltiplo do cidadão sondado, vigiado, espreitado, massificado, aquele ser abstrato, manipulado pelos novos donos do mundo que controlam sua mente e lhe ditam, discretamente, seu comportamento (p. 113).

Um outro objeto-mito, fortemente midiatizado na ocasião da guerra do Golfo, foi o bombardeiro americano F117 Stealth, chamado o “Furtivo”. Utilizado pela primeira vez durante a invasão do Panamá, em dezembro de 1989, este avião secreto saia enfim do espesso nevoeiro de mistério que, há anos, o envolvia. De fato, até então, não tinha sido visto, no sentido próprio do termo. Mas no Golfo pôde-se constatar que ele não se parecia com nenhum outro objeto voador. Aliás, o que fez dele um objeto cativante para o telespectador foi sua forma original e inédita (parecia sair de um desenho animado de Batman…), muito mais do que suas performances técnicas e suas proezas de guerra (p. 113)

Enfim, o terceiro objeto-mito que atraiu a atenção dos telespectadores da guerra do Golfo foi sem dúvida o míssil antimissil Patriot. Aqui, o que surpreende à primeira vista é a forma não heróica do engenho. Uma bateria de tubos, dispostos vulgarmente àmaneira dos arcaicos “órgãos de Stalin” da Segunda Guerra Mundial. Nada que se assemelhe á panóplia futurista dos filmes de George Lucas, do tipo Guerra nas estrelas. Uma forma minimalista, grosseira, mal acabada, como se desta vez, ao contrário do F117, a eficácia da função prevalecesse sobre qualquer outra coisa (p. 115).

Será ainda por acaso que, na nossa época tão tecnicizada, horóscopos e jogos de azar floresçam por toda parte, que a astrologia e outras quiromancias se dêem tão bem? Diante do avanço insólito do progresso científico, o cidadão assustado é tentado pelo irracional, pelo pensamento regressivo. O retorno aos “valores seguros” e arcaicos: patriotismo (e principalmente seus derivados extremos, o nacionalismo e o chauvinismo), fundamentalismos religiosos, fanatismo neoliberal… (p. 117)

Novos impérios

Nas circunstâncias atuais da globalização da economia, da cultura global (world culture) e da “civilização única”, estabelece-se o que alguns chamam a “sociedade da informação global”, cujo desenvolvimento se mede pela expansão das tecnologias da informação e da comunicação. Uma “infra-estrutura da informação global” se expande em escala planetária como uma imensa teia de aranha, aproveitando-se especialmente dos progressos em matéria de digitalização e favorecendo a interconectividade de todos os serviços ligados à comunicação e à informação (p. 120).

Nesta mutação do capitalismo, a lógica dominante não é a aliança, mas a absorção: num mercado que flutua ao sabor de imprevisíveis acelerações tecnológicas ou de surpreendentes entusiasmos dos consumidores (cf. o boom da Internet), a questão é de fato tirar proveito do know-how dos melhor colocados. No centro da notícia dada se encontra o fluxo sempre crescente de dados: conversas, informações, transações financeiras, imagens, sinais de todo tipo, etc. Estão envolvidos nestes fluxos, de um lado, os meios de comunicação que produzem os dados – edição, agências de notícias, jornais, cinema, rádio, televisão, sites na Web, etc. -e, de outro lado, os sistemas das telecomunicações e dos computadores que os transportam, tratam e elaboram (p. 123).

É claro que essas infra-estruturas só têm utilidade caso as comunicações possam circular sem entraves através do planeta. Épor isso que os Estados Unidos (primeiros produtores de novas tecnologias e sede das principais firmas) pressionaram com todo o seu peso, a favor da globalização da economia, na batalha da desregulamentação: abrir as fronteiras do maior número de países ao “livre fluxo da informação” redundaria em favorecer os mastodontes americanos das indústrias da comunicação e do lazer’ (p. 125).

Em trinta anos, o mundo produziu mais informações do que no curso dos cinco mil anos precedentes… Um único exemplar da edição dominical do New York Times contém mais informações do que poderia adquirir, durante toda a sua vida, uma pessoa culta do século XVIII. Da mesma forma, cada dia cerca de vinte milhões de palavras de informações técnicas são impressas em diversos suportes (revistas, livros, relatórios, disquetes, CDRoms). Mesmo um leitor capaz de ler mil palavras por minuto, oito horas por dia, precisaria de um mês e meio para ler as informações publicadas num único dia. Depois disto, teria acumulado um atraso de cinco anos e meio de leitura… O projeto humanista de tudo ler, de tudo saber, tornou-se ilusório e vão. Um novo Pico del la Mirandola morreria asfixiado sob o peso das informações disponíveis (p. 128).

Para concluir

A imprensa escrita está em crise. Na França, nos Estados Unidos e em outros lugares do mundo ela conhece uma baixa notável de sua difusão e sofre gravemente de uma perda de identidade. Por que razões, e como chegou a este ponto? Independentemente da inegável influência do contexto econômico, é preciso buscar as causas profundas desta crise na transformação que alguns conceitos básicos do jornalismo sofreram nesses últimos anos (p. 132).

Em primeiro lugar, a própria idéia de informação. Ainda recentemente, informar era, de alguma forma, fornecer não só a descrição precisa – e comprovada – de um fato, de um acontecimento, mas também um conjunto de parâmetros contextuais que permitam ao leitor compreender seu significado profundo. Era responder a questões básicas como estas: Quem fez o quê? Quando? Onde? Como? Por quê? Com que meios? Em que circunstâncias? E quais são as conseqüências? (p. 132).

Sob a influência da televisão, que ocupa atualmente, na hierarquia da mídia, um lugar dominante e expande seu modelo, isto mudou. O telejornal, principalmente graças à sua ideologia do direto e em tempo real, impôs paulatinamente uma concepção radicalmente diferente da informação. Hoje em dia, informar é “mostrar a história em curso, a história acontecendo”, ou, em outras palavras, fazer o público assistir (se possível, ao vivo) os acontecimentos (p. 132).

 

Equipe: José Fernando, Kleber Nunes, Paulo Victor, Stefani Brizza

Cap. 1: Conceitos: mídia radical e teoria da mídia

 - Cultura popular, audiências e mídia radical

O autor começa a discussão buscando diferenciar culturas populares, culturas de massa e culturas de oposição. Para Downing a culturas populares e a culturas de massa estão entrelaçadas, delas surge muitas vezes a cultura de oposição, que para ele é a capacidade do indivíduo de processar e redefinir as mensagens da mídia de massa (audiência ativa). A mídia radical é uma alternativa que constitui a forma mais atuante da audiência ativa e expressa tendências de oposição, abertas e veladas, nas culturas populares. (p. 33 e 34)

 – Definindo a cultura popular

Para Adorno e Horkheimer a cultura de massa – o produto das indústrias comerciais de publicidade, rádio e teledifusão – é “uma versão espúria e até mesmo implicitamente fascista das necessidades do público”, a qual sufoca o espírito do questionamento. Já a cultura popular é uma “expressão autêntica das visões e aspirações do público, como na música e na arte folclóricas, e tinha um inerente potencial de oposição”. (p. 34 a 36)

Downing considera a classificação dos frankfurtianos muito simplista, e cita Jesús Martín Barbero para reafirmar que a cultura popular e a cultura de massa estão intrinsecamente ligadas, além do que, essa perspectiva dualista apresenta uma falha séria: a cultura popular pode perfeitamente ser elitista, racista, misógina, homofóbica e nutrir preconceitos relativos à idade e ainda assim expressar valores de forma inventiva e superficialmente atraentes. Um exemplo é o papel da mulher nos contos de fada. A cultura popular é mais abrangente que a cultura de oposição. A cultura de oposição recorre e contribui para a cultura popular e a cultura de massa. (p.36 e 37)

 – Definindo audiências

A cultura compõe-se não apenas de textos ou outros artefatos, mas também do modo como são recebidos e utilizados. É preciso diferenciar a cultura popular da audiência: cultura popular, para a Sociologia, serve para categorizar de forma genérica a produção cultural e à sua recepção pelo público, enquanto que a audiência serve ao mundo empresarial como uma designação específica dos grupos (espectadores, ouvintes e leitores) derivados das estratégias de mercado. (p. 37)

O autor apresenta um novo conceito, a audiência ativa, formada pelo grupo que elabora e molda os produtos da mídia, e não apenas absorve passivamente suas mensagens. (p. 38)

 – Definindo Mídia Radical

O termo cultura popular, concentra-se na matriz da mídia radical alternativa. Esse tipo de mídia hoje vai além do uso das tecnologias, ela inclui uma gama de atividades como o teatro de rua, a dança entre outras manifestações comunicacionais. A mídia radical não está interessada na audiência por ser domesticada pelo mercado a ser estática e efêmera. A mídia radical propõe a seu público o debate, a crítica e a ação (p. 39 a 42)

 Cap. 2: Poder, hegemonia, resistência

 - O conceito de poder

 O que é poder? Existem várias definições do que é poder nas inúmeras correntes sociais. Porém o autor prefere seguir a do anarquismo socialista que tem grande influência sobre a mídia radical alternativa, isso porque o anarquismo socialista dá ênfase nas múltiplas realidades não só a econômica, ao contrário do marxismo puro, por exemplo, que vincula toda análise à economia política. O autor reforça sua tese citando David Wieck que afirma: “qualquer teoria que situe o segredo da libertação humana em algo tão específico quanto a política de propriedade negligencia a interdependência das muitas libertações”. (p. 43 a 45)

 – A noção de hegemonia de Gramsci

Nas décadas de 20 e 30 Gramsci produziu texto que refletiam sobre o poder, o capitalismo e a cultura dos europeus, latino-americanos e norte-americanos. Porém ele não se dedicou tanto aos temas econômicos e sim a cultura e ao poder. A partir daí Gramsci concluiu que a expansão e consolidação do capitalismo aconteceram através de órgãos de informação e cultura, como escolas, universidades, igrejas, literaturas, meios de comunicação e ideologias corporativas. E essa hegemonia capitalista se sustenta, até hoje, no poder das minorias. (p. 45 a 47)

Gramsci argumentava que a perspectiva oposta de futuro da nação, a da hegemonia socialista, seria construída com o passar do tempo através do engajamento das massas. Ao contrário da hegemonia capitalista que defende a subordinação dos trabalhadores assalariados e pequenos agricultores, a hegemonia socialista incluiria a maioria do público, cujas demandas e prioridades a fariam desenvolver-se sempre mais. Esse movimento político majoritário seria em grande parte liderado – mas nunca deveria ser manipulado ou tiranizado – por um partido comunista. (p. 47)

Seja como for, qualquer que seja nossa suposição sobre alguns dos aspectos específicos da análise de Gramsci, é razoável reconhecer que certas formas de liderança organizada são essenciais para coordenar os desafios à hegemonia ideológica do capital e propor programas e perspectivas alternativos dignos de créditos. Nesse sentido, seu “intelectual orgânico” quase poderia ser reinterpretado como “comunicador/ativista”, visto que, para Gramsci, o termo intelectual jamais se referia a pessoas que se opõem a pensar grandes pensamentos, que só elas e um pequeno círculo compartilham. Gramsci esperava que os comunicadores intelectuais/ativistas se integrassem organicamente com as classes trabalhadoras para o desenvolvimento de uma ordem social justa. (p. 48)

Influenciados por Gramsci, mais tarde, outros escritores trouxeram as noções de contra-hegemonia e contra-hegemônico como forma de categorizar as tentativas de contestar as estruturas ideológicas dominantes e suplantá-las com uma visão radical alternativa. Muitos dos meios de comunicação radicais alternativos pertencem a esse modelo. Ao mesmo tempo, a perspectiva de Gramsci oferece uma nova maneira de entender essa mídia. Numa estrutura em que as classes e o Estado capitalista são analisados meramente como controladores e censores da informação, o papel da mídia radical pode ser visto como o de tentar quebrar o silêncio, refutar as mentiras e fornecer a verdade. Esse é o modelo de contra-informação. (p. 48 e 49)

 A colocação de Gramsci se aplica perfeitamente em sociedades aparentemente menos tensas, onde a hegemonia capitalista exerce a autocensura por meio dos profissionais da mídia convencional, ou outros intelectuais orgânicos em posições de autoridade. Nesses cenários a mídia radical tem a missão não apenas de fornecer ao público os fatos que lhe são negados, mas também de pesquisar novas formas de desenvolver uma perspectiva de questionamento do processo hegemônico e fortalecer o sentimento de confiança do público em seu poder de engendrar mudanças construtivas. (p. 49 e 50)

 A mídia radical pode ser interpretada de duas maneiras: como necessária para construir a contra-hegemonia, mas desfrutando um poder apenas temporário, somente nos períodos de tensão política, ou como parte do anseio de expressar o diruptivo e profundamente arraigado descontentamento das massas. (p.50)

 – A análise da resistência de Scott

O antropólogo James C. Scott afirma que cada classe social ou grupo antagonista tem uma declaração pública para o que considera estar fazendo e uma declaração privada que circula apenas dentro do grupo. A infrapolítica, diz Scott, expressa os níveis reais e privados de resistência e raiva, relativos não só à exploração econômica que as pessoas enfrentam, mas também ao “padrão de humilhações pessoais que a caracterizam”, “surras arbitrárias, violações sexuais e outros insultos”. A infrapolítica dos pobres faz eclodir uma série de atos de resistência, alguns muito sutis, alguns intencionalmente ambíguos. Ou no caso das elites poderosas, a infrapolitica representa seu transcrito oculto de desprezo e raiva aos pobres. (p. 51)

 – Múltiplas fontes de opressão

  A comunicação tem a ver com compartilhar com discernimento a gama de questões que flagelam a vida social, tal como percebidas, tal como percebidas a partir de inúmeros pontos de vista, e compartilhar as possíveis soluções para elas é muito mais condizente com o potencial da mídia do que qualquer outra instituição contra-hegemônica, como um partido, um sindicato ou um conselho. A resistência, em outras palavras, é resistência às múltiplas fontes de opressão, mas requer, por sua vez, diálogo nos diversos setores – por sexo, raça, etnia, e nacionalidade, por exemplo. A mídia radical alternativa é central nesse processo. (p. 53)

 Cap. 3: Movimentos sociais, esfera pública, redes

- Movimentos sociais e mídia radical

O autor, baseando-se em outros autores como Arato e Cohen, oferecem três classificações para o termo movimentos sociais. O primeiro diz respeito às rebeliões de massa, o segundo nos movimentos como atores sociais e o terceiro classifica os meios como forma de afirmação da realidade e reconhecimento. Mas este esquema era extremamente ocidental e não permitia que outros tipos de manifestações que  não se enquadravam na visão de identidade coletivista dos NMSs (termo usado para esta linha de pensamento dos movimentos) ficasse à margem da classificação, como o a tentativa de inclusão de afro-brasileiros no Brasil, por exemplo. Era como haver muita teoria para a criação de uma identidade em detrimento da prática e modificação real. (p. 56-57)

Os partidos políticos não são tão sensíveis as necessidades profundas  do público quanto os movimentos sociais. Isto porque estas instituições oficiais da democracia estão, geralmente afastado da maioria do público, legislando em nome de uma massa, por sua vês, heterogênia. Ao passo que o diálogo e o debate público é facilitado  Isto não significa dizer, porém que os movimentos são construtivos por natureza. Muitas vezes, eles podem ter um caráter racista, antiimigrante ou sexista. Também por isso, não é incomum conflitos, cisões tanto por subculturas e forças de fronteiras, como de oposição aos movimentos. (p. 58-59)

Apesar da pouca atenção de pesquisadores no que diz respeito à mídia e a afirmação de uma crise por esta forma de comunicação, no entanto, o autor defende a que a propagação da mídia radical tem sido uma constante. (p. 60)

- Habermas e a Esfera Pública

O conceito de esfera pública (Offentlichkeit) de Habermas é, até hoje, amplamente discutido e recebe diversas interpretações. Mas, ela é mais aceita e entendida como uma esfera onde ocorre o debate, ou ocorria (segundo Habermas este debate desapareceu).

Este debate começou a desaparecer quando o controle da política oficial nas monarquias europeias começou a se extinguir, ganhando espaço os folhetos, os volantes e os primeiros jornais circulantes em áreas fora da corte. (p. 61-62)

Críticos marxistas como Oskar e Negt, criticaram este pensamento pessimista de Habermas e falaram sobre a importância do proletariado discutir as questões, encabeçando a agenda a fim de discutir passado, presente e futuro o que geraria a identificação de zonas alternativas para o debate radical e a reflexão dentro da sociedade. (p 63)

Assim como a massa é heterogenia, a esfera pública também está inserida na pluralidade e dentro na esfera vigora outras esferas na periferia e dentro dos movimentos fomentando a comunicação, a informação, o debate, etc, sobre os temas do momento. (p. 64)

Utilizando os estudos de Raboy, deve-se ao foto de ser ela a primeira a articular, difundir e analisar questões. Que, muitas vezes, somente depois entram na pauta da mídia convencional. (p. 65)

Embora a mídia radical esteja fortemente atrelada aos movimentos sociais não se deve deixar que eles fiquem circunscritos, pois as mídias, mesmo que silenciosamente, estão mantendo vivas questões e desenvolvendo novos temas para conversa.
Esses temas suscitam discussões que muitas vezes passam direto na mídia convencional, e aquelas manifestações, logo esquecidas já que se privilegiam as notícias e fatos rápidos, são esquecidos pela nossa memória. Um exemplo são as Mães da Praça de Maio na Argentina que, por mais de 20 anos, lembram os horrores da Ditadura enquanto a maior parte da mídia convencional, já esqueceu há tempos. (p. 66-67)

Essas discussões precisam crescer mais e mais a fim de se chegar ao entendimento comum a todos e que seja forte o bastante para abalar a hegemonia da estrutura do poder (p. 68)

 – O papel das redes de comunicação

A separação ente comunicação interpessoal e mídia tende a dificultar o entendimento entre mídia radical e redes sociais, pois a partir do momento que estas duas estão entrelaçadas a esfera pública torna-se tangível fazendo a relações se expandir para além do racional e metódico. Como sair do discurso, da teoria e ira para a prática, manifestando as ideias. Um exemplo são as redes religiosas da Revolução Iraniana onde circulavam materiais proibidos. (p. 70)

 Cap. 4: Comunidade, democracia, diálogo e mídia radical

- O vago conceito de comunidade

O conceito de comunidade é amplo, mas, assim como as massas e as esferas, esbarra na pluralidade do que é comunitári, pois, somente para o poder corporativo transnacional ou ao Estado Nacional é que é possível dar a impressão de homogeneidade.

- Modelos de Democracia

Os teóricos que escreveram sobre a democracia cometeram um erro classificado como grave por Downing. Eles desvincularam Mídia e Democracia, deixando o primeiro restrito a pequenos espaços dentro de seus textos acadêmicos. Logo, o autor chega a conclusão de que se não há comunicação, não há seres humanos em seus estudos, e, portanto, nem mesmo mídia. Mas, claro que se existiam seres humanos existia vida e também comunicação.

Para Downing, a mídia radical é a viga mestra da comunicação democrática uma vez que comparada a sua escassez de recursos, tem muito mais poder de transformação que a mídia convencional. (p. 78-79)

 – Macpherson e o poder de desenvolvimento

Na democracia do poder, Macpherson defende que é essencial ao público usar e desenvolver suas capacidades para só assim mudar a realidade a que estão submetidos. Dessa forma, iriam contra o cinismo dos produtores que sabem da real potencialidade das audiências, mas justifica a ausência pela subnutrição, falta de moradia, analfabetismo, etc. É neste cenário que surge o poder do desenvolvimento já que esbarra, nas massas, nas dificuldades do poder político e econômico. O conceito de poder de desenvolvimento pode ser usado como base para noções de contra-hegemonia e esferas públicas já que apresenta simbiose com os movimentos sociais.

Características da mídia radical:

1)expande o âmbito das informações a partir da troca, do diálogo, aspecto no qual a mídia convencional sai perdendo por não dar espaço as audiências

2) Como tem muita relação com os movimentos sociais, ela acaba sendo mais sensível e espontâneo pontos de vista que poderiam, por ventura, ser ridicularizados por outros meios.

3) Os assuntos pautados muitas vezes saem da mídia radical para a tradicional. Possibilitando um fluxo “inverso” do discurso, do menos numero para o mais numeroso)

4) A não censura que não está submetido aos interesses do patrão e às leis de mercado da propaganda.

 – Mídia Radical e diálogo

Downing utiliza para corroborar afirmações sobre a importância do diálogo nas mídias os autores Freire e Bakhtin. O sociólogo Freire, mesmo que engajado principalmente da alfabetização, pode ser usado como paralelo no que diz respeito às mídias. Pois, a interação, a troca  de Freire podem ser análogos a relação produtor/audiência uma vez que também se requer, para a comunicação, o diálogo, propondo a democracia do processo de comunicar-se o que atinge também, de maneira positiva, os movimentos sociais. (p. 82-83)

Já o teórico Bakhitin via nos romances literários um importante meio de contestação da realidade e deveria conferir uma posição de destaque nos discursos internos a fim de quebrar o discurso uniforme e oficial que vigora. E neste contexto, também é possível um paralelo com a mídia radical, que serve como esfera pública democrática e dialógica na cultura popular. (p. 84-85)

 – Comunicação e democracia

Para alguns teóricos, como Carey, o exercício da democracia ficou restrito ao voto já que a mídia oficial deixou de estimular a conversa pública e restringiu a democracia às eleições políticas e espetáculos de debates manipulados. Por este motivo, o debate dentro dos movimentos sociais utilizando-se da cultura serve para barrar as estruturas opressivas e manipuladoras. (p 86-87)

O teórico Freidland vai mais além. Além de reforçar a participação dos movimentos sociais neste processo, ele defende, ainda, as ações de cidadão engajados unindo-se em diferentes papéis para examinar e participar das discussões sobre projetos, discutindo sobre ele e introduzindo modificações. (p.89-90)

- O preço da participação

Durante alguns momentos da história a mídia convencional tentou excluir os trabalhadores da esfera pública cobrando preçços muito altos pelos seus produtos, como o caso do de jornais diários do século XIX.

Antes do advento da técnica rotativa, a mídia impresa era muito barata e por isso existiam vários jornais operários. Depois dela, os custos diminuíram a sua produção. Do mesmo modo, depois que as novas tecnologias, como câmeras de vídeo e gravadores foram surgindo, só restava aos operários a mídia escrita, agora mais barata. Atualmente, a forma mais barata para as mídias altenativas é a internet, mas continuam existindo formas de comunicação que não dependem de tecnologias, é o caso de grafite, camisetas, canções, teatro de rua, etc. (p. 90-91)

 

Equipe: Andressa Anjos, Crisluce Maria Sobral, Cristiane Menezes Condé, João Gabriel Brito, Maria Clara Albuquerque, Maria Paula Benning, Raissa Nascimento, Sthéphanie Melo

  • Prefácio

 “Novos tempos, novas perguntas e, com exceção daqueles satisfeitos com a situação presente, todos clamam por novas respostas” (p. 20).

  • Preâmbulo

 “O mundo passa por intensas transformações técnico – científicas e, ao mesmo tempo, vê-se envolvido por fenômenos de desequilíbrios e contradições que ameaçam a vida e a humanidade. Mas, apesar das dificuldades e das desilusões, algumas experiências de envolvimento popular na comunicação comprovam que o homem e a mulher encerram a potencialidade de ser sujeitos da história. Ser sujeito e não mero objeto é a essência da condição humana” (p. 23).

  • Capítulo 1: Movimentos sociais populares no Brasil

 “São contingentes de pessoas que vão perdendo valores intrinsecamente humanos, como o respeito pelo semelhante, a solidariedade, e a gratuidade, enquanto ajudam a valorizar cada vez mais a ganância e o individualismo. E assim o homem vai se tornando objeto, mercadoria, coisa manipulável, em detrimento de sua essência e do caráter de sua espécie” (p. 26).

 “O homem tem como essência a potencialidade de ser sujeito da história. Alienando-se ele perverte os seus valores próprios, transformando-se em objeto. Nessas condições, ele se deforma, se embrutece, se desumaniza” (p. 26).

 “Temos ocupado as primeiras posições na exportação de alimentos, apesar de um terço do povo brasileiro se achar vitimado por subnutrição grave, o que estaria gerando uma sub-raça em vias de ser definitivamente afetada em sua estrutura corporal na formação cerebral” (p. 27).

 “A sociedade brasileira está sempre mudando, num movimento constante cuja origem está na contradição e na diversidade, no conflito entre forças contrárias que ora confluem ora se repelem, daí surgindo o novo. E assim ele vai construindo sua história, ora convalidando, ora rejeitando o status quo” (p. 29).

 “A luta pela sobrevivência e princípios culturais individualistas, como os que se expressam no ditado popular “quem pode mais, chora menos” e na supervalorização do mundo material, vão coisificando cada vez mais o homem. E o resultado? Gente sofrida extraindo do lixo o seu alimento” (p. 29).

 “A compreensão emergente da população quanto à precariedade de sua existência e suas privações; a percepção da necessidade de ação coletiva para interferir nos processos decisórios do poder público e das empresas privadas” (p. 31).

 “Os movimentos sociais são usualmente reconhecidos apenas como locais ou ‘paroquiais’ em suas perspectivas, descontínuos e efêmeros em sua existência, cingidos a experiências comunitárias de democracia direta e organizados ao redor de reivindicações específicas, que postulam ao Estado a atenção a demandas concretas, cuja satisfação redundaria em geral em sua desmobilização ou extinção” (p. 34).

 “[...] duas maneiras distintas de se conceberem os movimentos populares, as quais se arraigam em concepções teóricas e políticas de fundo: Subordinação (os movimentos são formas inferiores de mobilização, que devem evoluir para formas mais plenas e satisfatórias de atuação política e partidária e a sindical), Cooperação (os movimentos populares são formas de organização e mobilização populares tão importantes quanto os partidos políticos e os sindicatos. Os movimentos seriam forças autônomas agindo num espaço não coberto por partidos e sindicatos e, com isso, complementando-os no processo de peleja política). [...] Nesse sentido, os movimentos constituem uma tentativa de romper o oligopólio do partido na oferta de participação política, ampliando a esfera dos canais legítimos. E assim, apesar de suas limitações, vão ocupando o seu lugar na sociedade, contribuindo para construir a cidadania” (p. 34).

 “Os movimentos são formas inferiores de mobilização, que devem evoluir para formas mais plenas e satisfatórias de atuação política e partidária e a sindical” (p. 35).

 “A questão é não subestimar as organizações sociais não-partidárias nem superestimar as organizações partidárias e sindicais – e vice-versa. Elasse completam sendo todas as formas de organização salutares ao esforço de democratização da sociedade” (p. 37).

 “E assim os movimentos sociais populares, apesar de suas limitações, vão ocupando o seu lugar na sociedade, contribuindo para construir a cidadania. Trata-se de um processo que envolve a diversidade, porque nossa sociedade é pluralista demais para afunilar-se sob a direção de uma única organização político-partidária” (p. 37).

 “A mídia concedeu amplos espaços a essas manifestações, que para o Estado não passavam de afrontas. Alguns teóricos começaram a ver nos movimentos a grande esperança de mudança social” (p. 40 e 41).

 “O fortalecimento dos conselhos populares encarregados de temáticas específicas, com assentos garantidos para os representantes dos movimentos populares, é um dos grandes marcos dessa nova fase pela qual estes passam. Já não se tem mais receio em sentar à mesma mesa com o governo e o empresariado para discussões e negociações” (p. 43).

 “Os movimentos populares são forças que se manifestam de modo bastante fragmentário e difuso. Todavia, a prática mostra que em determinados momentos, quando os objetivos se tornam comuns, eles se revelam de maneira mais orgânica” (p. 47).

 “A proposição de Gramsci de que um grupo social pode ser dirigente já antes de torna-se governante, sendo essa uma das condições principais para a conquista e manutenção do poder” (p. 50).

 “No caso brasileiro, a crise, desde a fase de decadência do regime militar, é concreta, mas complexa e contraditória. Em geral, adquire formatos de problemas econômicos, políticos, sociais e morais. É discutível se nos últimos anos do autoritarismo a tensão vivida chegou, ou não, a configurar-se em conflito orgânico entre estrutura e superestrutura, muito embora o deslocamento entre governantes e governados tenha sido momentaneamente explícito. Uma coisa é certa: a classe burguesa, com a abertura ‘abertura gradual’, do ‘governo transitório’, foi hábil o suficiente para reorganizar o bloco histórico, mudando apenas algumas regras do jogo e os atores políticos para continuar no poder” (p. 51).

 “Quando de sua emergência, os movimentos sociais tiveram como grandes animadores membros das comunidades eclesiais de base e de outros grupos ligados à Igreja Católica. [...] Em seus encontros, essas entidades passaram a fazer uma leitura combinada da Bíblia e da realidade, procurando compreender a necessidade da participação, da ação coletiva e da prática concreta – e não só a oração – como compromisso do cristão para melhorar as condições de vida da população” (p. 52 e 53).

 “Os movimentos sociais populares têm limitações e podem ser transitórios, mas desde o contexto em que despontaram até os dias atuais manifestam características inovadoras. [...] Os movimentos ocupam um espaço cujas expectativas e reivindicações os canais vigentes não estavam conseguindo absorver, como aqueles relacionados às necessidades de moradia, de melhorias e de acesso a bens de consumo coletivo, às discriminações raciais e sexuais, às condições gerais de vida. Todavia, no decorrer do processo, também esses vão se fortalecendo como instrumentos de luta dos trabalhadores” (p. 54).

 “As novas estruturas sociais – ou os novos núcleos – que as organizações populares vêm construindo, e que são da maior relevância na práxis democrática, podem ser aglutinadas em: núcleos de socialização, núcleos culturais, núcleos econômicos e núcleos políticos. Essas são novas estruturas que, elaboradas pelos movimentos sociais, representam um movimento de mudança por dentro da sociedade. Muito embora não se apresentem como forças dominantes e dirigentes nesse momento histórico, estão aí construindo um novo tipo de poder e ajudando a democratizar a sociedade” (p. 55 e 56).

 “A pressão dos movimentos populares e as evidências da deterioração das condições de vida, acrescida, às vezes, de interesses político-eleitorais, provocam mudanças no interior do Estado, que vai se abrindo às reivindicações” (p. 58).

 “É visível que as organizações populares passam a ser cada vez mais levadas em conta como interlocutoras coletivas, pelos órgãos públicos” (p. 59).

 “Segundo Durham, os movimentos sociais forjam a cidadania e unificam os interesses e as lutas da população heterogênea. A vivência em situação de igualdade ou de ‘cunho comunitário’, tanto pelas condições devidas que atingem a todos quanto pela participação de cada um, seja falando, opinando ou decidindo, está favorecendo a constituição da pessoa no plano político. Desenvolvem-se assim valores coletivos, como as noções de igualdade, direitos, democracia direta, autonomia, participação da mulher, solidariedade e gratuidade, os quais passamos a explicitar um pouco mais” (p. 60).

 “Os movimentos populares organizam-se “segundo o lugar de trabalho ou de moradia, segundo algum principio comunitário que os agrega”, sem distinção de qualquer natureza. Envolvem desde o operário, que também faz luta no bairro, até funcionários públicos, subempregados, donas-de-casa, trabalhadores, autônomos, etc” (p. 60).

 “Os movimentos populares vivenciam diferentes etapas e momentos distintos. Existem aqueles que já atingiram graus elevados de organização, articulação, ação coletiva e consciência política, enquanto outros estão começando ou se acham numa fase intermediária ou estão tentando se recuperar de refluxos. Por isso, é impossível ver neles uma homogeneidade ou mesmo um padrão único em sua experiência democrática, que alguns exercitam mais do que outros, embora todos se pautem de alguma forma pela democracia direta, existindo até mesmo aqueles onde s lideranças agem autoritariamente” (p. 62).

 “A opção pela autonomia foi se tornando cada vez mais difícil para os movimentos populares com pouca experiência de organização coletiva e de prática e consciência política, por vários motivos. Primeiramente, a pressão exercida pelo poder público e pelos partidos de direita, de várias formas: cooptando lideranças, trocando favores prestando serviços de cunho assistencialista e formando organizações locais paralelas atreladas às entidades governamentais. Depois, uma certa tendência favorável a práticas clientelísticas enraizadas na cultura do povo. Por fim, os esforços de militante de partidos de esquerda no sentido de direcionar os movimentos ou fazer deles suas bases de sustentação” (p. 66).

 “Ocorrem com frequência casos de líderes que, depois de certo aprendizado, passam a candidatar-se a cargos de representação política, abandonando o movimento, o que se dá por indicação deste ou por opção pessoal, podendo os motivos residir na consciência da necessidade de participação popular nos canais legislativos, mas também em outros interesses. Assim, tem-se verificado que, ancorados numa visão da utilidade dessa opção para viabilizar conquistas mais expressas para os movimentos populares, membros destes ou das comunidades eclesiais de base têm recebido estímulos para o engajamento político-partidários à esquerda. Na prática essa militância, por vezes além de ocupar o tempo antes dedicado aos movimentos e afastar deles suas lideranças, implica o enquadramento da pessoa em certa fidelidade partidária, que, se transplantada de forma direta para as organizações populares, pode prejudicar a sua caminhada, que é pluralista por natureza” (p. 67 e 68).

 “Os movimentos sociais populares representam estruturas novas que podem vir a contribuir na formação de um duplo poder. São criações da sociedade civil, que a vão democratizando, exercendo um papel do qual os canais tradicionais de representação não estavam dando conta. Além do mais, não tiram espaços destes, mas, pelo contrário, pode somar esforços com eles. São depositários de experiências da democracia direta, surgindo, talvez, para complementar a democracia representativa” (p. 69).

 “As mulheres vão quebrando o tabu de uma “vocação” que restringe suas atividades aos afazeres domésticos e passam a envolver-se ativamente em movimentos sociais. Sua participação, geralmente superando a dos homens, não se limita só às organizações especificamente femininas, mas estende-se a praticamente todas as outras e às comunidades eclesiais de base, assumindo até posições de liderança” (p. 70). 

  • Capítulo 2: Participação

 “Nas condições do Brasil e de outros países latino-americanos, onde os povos não têm tradição nesse sentido [de participação nos mecanismos decisórios], aliado isto à reprodução de valores autoritários, à falta de conscientização política e a outros fatores, pretender alcançar um grau de participação mais elevado é algo de difícil concretização” (p. 73).

 “Nossas tradições e nossos costumes apontam mais para o autoritarismo e a delegação de poder do que para assumir o controle e a co-responsabilidade na solução dos problemas” (p. 74).

 “O certo é que o autoritarismo é resultado histórico da formação econômica, social, política e cultural brasileira e, como produtos dessa dinâmica, estamos impregnados de alienação e de acomodação” (p. 75).

 “Diante dessa situação, concordamos com Demo, ao afirmar que a participação não é dada, é criada. Não é dádiva, é reivindicação. Não é concessão, é sobrevivência. A participação precisa ser construída, forçada, refeita e recriada” (p. 75).

“A participação da população nas decisões, a menos usada no Brasil contemporâneo, implica, o exercício do poder em conjunto, de forma solidária e compartilhada, como participação-poder” (p. 77).

 “Estabecem-se relações de dependência e de “freguesia” com alguém que ‘doa’ benefícios, cuja retribuição esperada é o voto na época de eleição” (p. 81).

 “O fato é que, satisfazendo o trabalhador, ativando a sua criatividade, este não só se realiza como rende mais” (p. 82).

 “Na história do homem, já se de ha muito a esperança de uma sociedade justa, sem desigualdades nem explorações e opressões tem dado origem aos movimentos revolucionários concretos de trabalhadores, bem como as elaborações teóricas de seus intelectuais orgânicos” (p. 89).

 “O processo para se alcançar essa sociedade livre e igualitária desencandeado com a revolução ‘proletária’ e a consequente tomada do poder político pelos trabalhadores, passaria pela extinção da propriedade social, além da eliminação dos métodos desordenados de produção, das classes sociais e do Estado, que não teriam mais razão de existir” (p. 92).

 “Segundo Motta, anarquia “não deve ser entendida aqui como sinônimo de desordem, mas sim como sinônimo de sociedade libertadora” (p. 94).

  • Capítulo 3: Comunicação popular

 “As investigações sobre a comunicação popular implicam a necessidade de a teoria abarcar os processos no contexto mais amplo em que se realizam, ou seja, devem ir além do estudo do meio comunicativo em si mesmo de um jornal, por exemplo, pois a dinâmica social na qual este se insere é que vai lhe dar significados” (p. 114).

 “Numa conjuntura em que vinha à tona a insatisfação decorrente das precárias condições de existência de uma grande maioria e das restrições à liberdade de expressão pelos meios massivos, criaram-se instrumentos ‘alternativos’ dos setores populares, não sujeitos ao controle governamental ou empresarial direto. Era uma comunicação vinculada à prática de movimentos coletivos, retratando momentos de um processo democrático inerente aos tipos, às formas e aos conteúdos dos veículos, diferentes daqueles de estrutura então dominante, da chamada ‘grande imprensa’. Nesse patamar, a ‘nova’ comunicação representou um grito, antes sufocado, de denúncia e reivindicação por transformação, exteriorizado sobretudo em pequenos jornais, boletins, alto-falantes, teatro, folhetos, volantes, vídeos, audiovisuais, faixas, cartazes, pôsteres, cartilhas, etc” (p. 114 e 115).

 “[a comunicação popular] é resultado de um processo, realizando-se na própria dinâmica dos movimentos populares, de acordo com as suas necessidades. Nessa perspectiva, uma de suas características essenciais é a questão participativa voltada para a mudança social” (p. 115).

 “A maioria dos estudos de comunicação popular, na perspectiva dos movimentos sociais, parte do pressuposto de que povo são as classes subalternas, econômica e politicamente, às classes dominantes” (p. 117).

 “Povo não tem estatuto teórico e universal, não se podendo, portanto, vê-lo sob uma categoria de análise prefixada. É preciso apanhá-lo em seu contexto, como uma realização histórica, cuja composição e cujos interesses variam em função de fatores determinantes, estruturais e conjunturais, constituindo-se sempre num todo plural e contraditório” (p. 117 e 118).

 “Falar de uma comunicação ‘popular’ também envolve conotações diversas, destacando-se, a nosso ver, três correntes em seu estudo: popular-folclórico, popular massivo, popular alternativo” (p. 118).

 “Alguns autores têm chamado a comunicação popular de alternativa – além de muitos outros adjetivos que lhe são atribuídos, como comunitária, participativa, dialógica, horizontal, usados geralmente como sinônimos. Contudo, na bibliografia corrente, se faz uma distinção entre os termos popular e alternativo. No Brasil, a expressão ‘imprensa alternativa’ tem recebido conotação específica, entendendo-se por ela não o jornalismo popular, de circulação restrita, mas os periódicos que se tornaram uma opção de leitura crítica em relação à grande imprensa” (p. 120).

 “É necessário levar em consideração que por comunicação popular se podem compreender processos variados, o que lhe confere características singulares” (p. 122).

 “Num primeiro momento, ela foi identificada como aquela comunicação simples, de circulação limitada, produzida quase artesanalmente por grupos populares. Em seguida, passou-se a dizer que ela ‘não se refere ao tipo de instrumento utilizado, mas ao conteúdo das mensagens’, vendo-se como expressão dos interesses, do ‘conteúdo das classes subalternas’, entendido este enquanto crítico-libertador. Depois aparecem aqueles que sustentam que não são os meios técnicos em si que definem a comunicação popular, nem tampouco são os seus conteúdos. O alternativo estaria no processo de criação conjunta, diálogo, construção de uma realidade distinta na qual a pessoa seja sujeito pleno. O que torna a comunicação popular é a sua inserção num contexto alternativo [...], [caracterizado] por sua tendência a romper a ordem do capital, integrar aquilo que o fragmenta” (p. 123).

“[...] o significado da comunicação popular está em ser um fenômeno emergente, do povo ou com ele relacionado, comprometido com a mudança social e a transformação deste em sujeito histórico” (p. 124).

 “[...] fundamentos da concepção de comunicação popular relacionada aos movimentos sociais. Expressão de um contexto de luta: é o meio de conscientização, mobilização, educação política, informação e manifestação cultural do povo. É canal por excelência de expressão das denúncias e reivindicações dos setores organizados da população oprimida. Conteúdo crítico-emancipador: as mensagens que se transmitem nessa comunicação são de acordo com a opção que as pessoas (…) vão fazendo, (…) que vai se gestando geralmente por meio de uma organização popular, na qual os objetivos são claros e de acordo com as lutas de um povo em prol de sua libertação” (p. 125).

 “Espaço de expressão democrática: [a comunicação popular] é um espaço de comunicação democrática, vinculada aos interesses dos segmentos subalternos da população, tanto em sua metodologia quanto a sua forma e em seu conteúdo. [...] Ela perpassa as relações interpessoais e grupais e ali ajuda a construir a base de nova cultura popular” (p. 126).

 “O povo como protagonista: a comunicação popular tem como protagonistas o próprio povo e/ou as organizações e pessoas a ele ligadas organicamente. Nesse caso, ele é visto no seu antagonismo em relação às classes dominantes e concebido como o conjunto das classes subalternas” (p. 127).

 “Instrumento das classes subalternas: a comunicação popular é entendida como a das classes subalternas, realizada num processo de luta de classes. Nesse caso, ela é vista como oposta ao modelo massivo em poder das classes dominantes, o qual é encarado como impositivo, alienante ou pervertedor dos interesses populares. [...] Essa postura de opor os meios populares aos massivos sofreu uma profunda revisão nos anos noventa, em função das mudanças que ocorrem na sociedade” (p.127 e 128).

 “[...] opor a comunicação popular e os meios massivos não é uma idéia compartilhada por todos os estudiosos da área. [...] Na prática, os meios de comunicação popular, apesar de sua importância e de seu significado político, não chegam a colocarem-se como forças superadoras dos meios massivos. Os dois são complementares e não excludentes” (p. 130).

 “Há que se reconhecer o grande poder da mídia e sua manipulação, prioritariamente, a serviço dos interesses das classes dominantes, mas nem por isso ela deixa de dar sua contribuição ao conjunto da sociedade. [...] Os veículos de comunicação massiva não são, portanto, necessariamente, ‘perversos’ com relação aos interesses populares. [...] Muitas experiências, principalmente no setor da radiofonia, têm demonstrado sua potencialidade quanto a um trabalho educativo na perspectiva emancipadora. O fato é que a comunicação popular também pode valer-se deles” (p. 131).

 “A tendência é repudiar a mídia massiva talvez tenha até influenciado a elaboração de uma comunicação popular não tão atraente, que atribui um espaço e um valor muito reduzido ao entretenimento, ao lazer, às amenidades, ao humor e ao lúdico” (p. 132).

“Os meios de comunicação de massa, segundo estudos da época, em síntese: estão nas mãos da burguesia; orientam-se pela unidirecionalidade e verticalidade; privilegiam os objetivos e a ideologia das classes dominantes; criam hábitos de consumo por meio de persuasão; ocultam ou desvirtuam a realidade” (p. 134).

 “A crença de que os meios manipulam as consciências ignora a dimensão fundamental da pessoa humana e, portanto, seu universo cultural, para aceitar que os valores do povo são construídos por aqueles veiculados pelos meios massivos. [...] Os movimentos sociais voltaram as costas para o massivo como uma forma de buscar uma aproximação com as massas, esquecendo-se de que em nosso continente a instituição que mais conseguiu se aproximar das massas, por se apropriar de seu modo de pensar, falar e ver o mundo, foi a indústria cultural” (p. 136).

 “Como a sociedade, a cultura não é algo estático. Em seu movimento, nas décadas de setenta e oitenta, ela tem sido reflexo não só da reprodução de valores e da criação e recriação de outros, mas também da introdução da utopia” (p. 138).

 “Não é pertinente, hoje, pensar-se numa cultura dissociada da mídia. Afinal, na práxis cotidiana, o popular no sentido conscientizador não se isola do massivo. O gosto pela programação melodramática e por cenas de violência, por exemplo, continua vivo, o que não quer dizer que o medo de pensar de segmentos expressivos da população não tenha mudado em nada” (p. 139 e 140).

 “Comumente, sob o ponto de vista teórico, a comunicação popular é entendida numa perspectiva de igualdade entre emissor e receptor. Mas essa noção em geral é adotada abstratamente” (p. 140).

 “É muito comum meios populares serem produzidos por uns poucos e estes fazerem suas próprias interpretações das necessidades de informações e de outras mensagens dos receptores. Neste sentido, pode estar havendo uma certa reprodução do dirigismo e do controle por parte de lideranças e/ou instituições mediadoras da comunicação popular” (p. 141).

 “A participação popular na comunicação comunitária pode significar, numa gradação crescente: o simples envolvimento das pessoas, geralmente ocasional, no nível das mensagens, ou seja, dando entrevistas, avisos, depoimentos e sugestões ou cantando.” (p.142)

 “A participação das pessoas pode tanto concretizar-se apenas em seu papel como ouvintes leitores ou expectadores quando significar o toar parte dos processos de produção planejamento e gestão de comunicação” (p. 145).

 “Os movimentos sociais populares brasileiros estão construindo algo de ‘novo’, expressando interesses coletivos que trazem em seu interior um esforço pela autonomia e por um ‘quefazer’ democrático, num novo espaço de ação política, e contribuindo, assim, para a elaboração de outros valores” (p. 148).

 “Se a comunicação dos movimentos sociais representa um campo rico de significado político-cultural, ela, por outro lado, também passa por muitas limitações: abrangência reduzida, inadequação dos meios, uso restrito de veículos, pouca variedade, falta de competência técnica, conteúdo mal explorado, instrumentalização, carência de recursos financeiros, uso emergencial, ingerências políticas, participação desigual” (p. 149).

 “Os meios atingem, geralmente, apenas uma parcela de leitores, ouvintes e espectadores potenciais. Um jornal ou boletim informativo, por exemplo, só chega a um número, restrito de moradores do bairro e, quase sempre, àqueles já “conscientizados” ou sensibilizados para a luta” (p. 149).

 “É comum a utilização de algum tipo de veículo de comunicação sem maiores preocupações com sua apropriação ao público-alvo” (p. 149)

 “Apesar de todas essas limitações, não deixam de ocorrer também experiências avançadas, que, envolvendo efetivamente a participação conjunta, contribuem para uma comunicação popular realmente útil ao processo de educação para a cidadania: diversificação de instrumentos, apropriação de meios e técnicas, conquista de espaços, conteúdo crítico, autonomia institucional, articulação da cultura, reelaboração de valores, formação das identidades, mentalidade de serviço, preservação da memória, democratização dos meios, conquista da cidadania” (p. 155)

 “A comunidade popular, ao abordar temas locais os específicos, tende a despertar o interesse por parte da audiência, pelo fato de o conteúdo e os personagens terem relação mais direta com as pessoas. Os programas não são espetáculos a que se assiste, mas dos quais se participa, o que leva a incrementar o processo de construção das identidades e de cultivo dos valores históricos e culturais.” (p.157)

  • Capítulo 4: Rádio participativa no âmbito dos movimentos sociais

 Primeira Parte

Alto-falantes

 ▪ Quatro modelos: 1. Organizações populares; 2. Duas pessoas comprometidas; 3. Melhorias na comunidade visando prestígio; 4. Veiculação de anúncios e patrocínio. (pág. 159)

 I. Rádio do Povo

Villa El Salvador, Lima: a partir de aulto-falantes montados nos grupos residenciais do assentamento promovido pelo governo, o Centro de Comunicação Popular local dispôs de uma emissora de rádio e uma de TV. (pág. 160)

▪ A experiência inspirou o projeto de Comunicação Não-Escrita da Zona Leste II (Proconel) e educação popular de São Miguel Paulista (Cemi), que criou a coordenação das rádios do Povo, em São Paulo.

▪ Implantação das rádios: carência de bens necessários à vida

▪ Rádio do Povo de Vila Nossa Senhora Aparecida: educação popular

1. Objetivos

A Rádio do Povo queria tratar de assuntos sobre a comunidade e de interesse da comunidade para fins de valorização e luta por mudanças democráticas: “saúde, educação, menores, esporte, cultura, religião, trabalho, organização comunitária e informação de atualidade”. (pág. 162)

2. Participação popular

▪ Direção da emissora: operários, agentes pastorais, donas-de-casa e estudantes de jornalismo. (pág. 163)

▪ Produções com participação popular: depoimentos, entrevistas, produtos da criatividade popular, recados, solicitação de músicas

▪ A direção tem o poder de decisão e a democratização das veiculações respeita os preceitos da Igreja Católica

II. Rádio Popular de São Pedro

▪ Fica em Vitória, capital do Espírito Santo (pág. 165)

▪ Prestação de Assessoria em Comunicação: estudo e análise

▪ Pesquisa em duas etapas: 1. Meados de 1985 aos primeiros meses de 1989; 2. Até julho de 1991

 1. O contexto

O lugar foi objeto de estudo de diversos pesquisadores. “Isso se explica pelos movimentos reivindicativos que ali se formaram, dotados de acentuado nível de organização, pela prática de atividades comunitárias e pela adoção de estratégias de sobrevivência desenvolvidas pelos próprios moradores numa situação de extrema pobreza e miséria que caracterizou e ainda caracteriza, em algumas partes, a vida da população que ali mora”. (pág. 167)

▪ População: “A maioria é constituída basicamente de biscateiros, catadores de lixo, operários, pescadores, domésticas e alguns funcionários públicos de nível médio”.

▪ O povo representava uma base eleitoral em potencial (valorização imobiliária) (pág. 168)

▪ Organizações populares diversas

 2. A emissora

▪ Articulação: lideranças locais, pessoas de bairro, jornalistas e professores da Universidade Federal do Espírito Santo (pág. 169)

▪ Audiência em potencial: cinco mil pessoas

▪ (…) “ multiplicar as lideranças; anunciar e denunciar; divulgar informações; proporcionar momentos de lazer à população; despertar o espírito crítico diante dos meios de comunicação social e dos noticiários; e o desenvolvimento de especialistas nesse tipo de veículo”. (pág. 170)

▪ Oficina de trabalho

3. Uma rádio popular no ar (1985-1989)

▪ Os equipamentos da rádio foram financiados pelo Centro de Estatística Religiosa e de Investigações Sociais. Mais tarde, eles receberam recursos da Coordenadoria Ecumênica de Serviços (pág. 171)

▪ A escolha da programação aconteceu mediante sondagem com o público-alvo, o que eles gostariam de ouvir e qual seria o melhor horário

▪ Quando a rádio entrou no ar (2 de agosto de 1986), cerca de 500 pessoas estavam presentes

▪ Diante de algumas dificuldades, como carência de um estúdio próprio e fitas cassetes, a equipe resolveu investir em cursos para locução e um programa aos sábados (pág. 172)

▪ A equipe final tinha dez pessoas e as reuniões para decisões eram semanais

3.1. Programação

▪ (…) “vinheta de abertura; leitura de um texto-mensagem; reportagem; comentário; avisos; horóscopo: espaço aberto (para cartas de ouvintes oferecendo músicas para outros); momentos de visita; e músicas. Depois foram sendo introduzidas inovações como dicas de preços praticados na feira-livre que coincidia com o horário da irradiação; parabenização dos aniversariantes do mês; propaganda de comerciantes locais; seções especiais em datas comemorativas (por exemplo, o Dia da Criança).” (pág. 172)

▪ A programação era totalmente voltada para realidade da comunidade especialmente com temas específicos como eleições. A resposta vinda do público estava sendo positiva. A participação popular era muito importante.

3.2. Política

▪ A rádio deveria “ser independente e democrática; ter um conselho no nível de movimentos; envolver sempre o povo; dar voz ativa aos grupos organizados; abrir espaços para debates com todos os partidos e não só com um.” (pág. 174)

▪ A participação popular acontecia mediante o envio de mensagens, todas as outras decisões eram tomadas pela equipe, porém, de forma democrática diante da aceitação e ajuda de líderes locais.

▪ Por causa de divergências políticas entre dois participantes, o restante se dispersou. Apesar de desfalcada, a emissora continuou no ar

4. Tentando voltar às origens (1989-19991)

▪ Uma nova fase se inicia na rádio a partir da inserção de mais integrantes, jovens estudantes convidados pela liderança,  e outras tomadas de decisão como a sede que cogitava-se mudar de lugar (pág. 175)

4.1. Uma avaliação

▪ Em uma reunião, realizada no dia 7 de setembro de 1989, que objetivava discutir o futuro da rádio, os seguintes pontos foram abordados: “objetivos da rádio; saída dos equipamentos; membros e normas internas; cursinho de capacitação.” (pág. 176)

▪ A maioria dos assuntos abordados relacionava-se com disputa de poder. As divergências iam de programação até liberação de equipamentos para utilização externa

 4.2. Crise na programação

▪ Por uma questão de deficiência dos equipamentos, alguns programas não iam ao ar e a programação foi ficando desfalcada. Em dois meses de pesquisa estacionados, por motivo de estágio dos pesquisadores no exterior, a rádio só funcionou duas vezes. As lideranças resolveram, então, financiar os equipamentos em época de eleição na Assembléia Legislativa Estadual (págs. 179 e 180)

5. Fragilidade

▪ Pontos desfavoráveis apontados durante a análise da emissora: falta de responsabilidade, irregularidade da programação, impropriedade da linguagem, desestruturação organizativa, ausência de planejamento, deficiências de edição, carência de sustentação financeira, ausência de humor e de criatividade popular, inadequação do local e restrição da participação (págs. 180 a 184)

6. Potencialidade

▪ Pontos favoráveis observados: serviços prestados à comunidade, dedicação, integração com a realidade local e abertura à participação popular (págs. 184 a 186)

7. A questão da participação

▪ O que há de mais positivo na experiência da segunda fase da rádio é a composição desta por pessoas da comunidade para fins educativos. A participação popular através do envio de mensagens foi um fator analisado (pág. 186)

7.1. Produção do programa

a) Participação da equipe

▪ Havia distribuição informal de tarefas que eram executadas por quem estivesse lá (pág. 187)

▪ A produção era feita no ato da execução do programa, não havia planejamento

▪ As decisões finais passavam pelo crivo de uma liderança por inexperiência dos outros participantes e pó que mais ninguém havia para ocupar este cargo

b) Participação da comunidade

▪ Apesar de muitas convocações, durante a programação, para que a população participe, ficava muito difícil perante a falta de maios que facilitassem isso como equipamento móvel para entrevistas (pág. 188)

7.2. Planejamento do meio

a) Participação da equipe

▪ Tanto na primeira fase da rádio como na segunda, os participantes não traçaram um planejamento eficaz para a utilização da aparelhagem técnica da emissora, bem como recursos financeiros, técnicos e normas (pág. 189) 

b) Participação da comunidade

▪ Mediante essa falta de planejamento, não se poderia esperar que houvesse participação dos moradores (pág. 190)

7.3. Gestão da organização

a) Participação da equipe

▪ A gestão era feita pelas lideranças que se uniram por afinidades político-partidárias e, também, porque não haviam princípios ou normas explicitamente claros o que resultou numa administração confusa

b) Participação da comunidade

▪ A participação da comunidade não foi levantada no período de pesquisa

8. Uma visão de conjunto

▪ A intenção da rádio era democratizar. Não houve intenções percebidas de implantar uma co-gestão ou uma gestão. No entanto, as participações populares estavam comprometidas ao crivo das lideranças. A pesquisa constatou influências de um partido de esquerda

9. A desventura de um meio

A rádio continuou a funcionar de forma precária até parar de funcionar (pág. 191)

  • Capítulo 5: Rádio participativa em contextos históricos específicos

 “A rádio revolucionária procura sustentar e defender um regime político instaurado quando, pela luta armada, conquista o poder do Estado” (p. 215)

“A rádio guerrilheira é um veículo de difusão de mensagens com vistas a angariar a simpatia para ações armadas, buscando criar o consenso em torno delas e o apoio popular em termos ideológicos e de prática política” (p. 215)

“A rádio livre é aquela que, numa conjuntura conflitiva ou não-conflitiva, ocupa um espaço no dial dos receptores sem ter recebido a concessão de um canal, sendo, por isso, também conhecida como ‘clandestina’, ‘pirata’ ou ‘alternativa’. [...] Tem, ou não, uma linha política explícita, podendo tanto contemplar finalidades políticas, comerciais, hobísticas e até pornográficas quanto servir à comunidade ou a uma ideologia. Em geral, representa uma forma de contestar o sistema de radiodifusão vigente, que priva a maior parte das organizações da sociedade civil do acesso às ondas sonoras” (p. 216)

“Em entrevista a Cadernos do Terceiro Mundo, Ortega afirmou: ‘Pelos resultados eleitorais, algumas pessoas podem pensar que a revolução foi derrotada. E eu lhes garanto [...] que não foi. [...] É possível uma derrota eleitoral da Frente Sandinista sem que tenha sido derrotada a revolução? Sim, porque, quando derrubamos a ditadura somozista, apresentamos uma proposta nova, diferente, que significava um desafio para a imaginação e a criatividade dos revolucionários da América Latina e do Caribe: forjar uma sociedade democrática, pluralista, de economia mista e não-alinhada’” (p. 220)

“No período que estamos analisando, a carta-magna nicaragüense assegurava o direito à informação – a liberdade de buscar, receber e difundir informações e idéias por quaisquer meios (art.66), a ser visto como uma responsabilidade social e exercido com estrito respeito à constituição e sem censura prévia (art.67), devendo os meios de comunicação estar a serviço dos interesses nacionais (art.68)” (p. 222)

“Em termos de jornais, os três principais eram: Barricada, El Nuevo Diario e La Prensa. Os dois primeiros, apesar de ligados à revolução, eram dirigidos por membros dissidentes da família Chamorro, proprietária direta do terceiro, que sempre foi um jornal de oposição – primeiro ao somozismo, depois ao sandinismo” (p. 223)

“O jornal La Prensa e, com ele, o setor mais conservador da cúpula católica foram muito explorados pelos Estados Unidos, como instrumento de pressão e de propaganda anti-sandinista, até a transição do poder no país. Por razões históricas, ‘depois do triunfo da revolução, os partidos políticos [...] e as organizações gremiais da burguesia careciam de legitimidade para chegar às massas, reservando-se esta possibilidade ao jornal La Prensa e à Igreja Católica como instituições’” (p. 223-224)

“A mesma agência norte-americana, com o auxílio de mercenários, para os quais se chegou a elaborar um manual de operações psicológicas, também se valia amplamente de rádios do exterior. No país captavam-se setenta e seis sinais de emissoras estrangeiras de ondas médias, curtas e de freqüência modulada. ‘A maior parte de suas mensagens, durante o período de guerra, tinha o objetivo de minar a confiança do povo nicaragüense em seu governo’” (p. 224)

[...] “’conjugar a todo momento os objetivos políticos da revolução com as necessidades de informação e diversão do povo’. Nesse processo usaram-se táticas interessantes, mediante uma programação mais atraente, sem discursos revolucionários longos e monótonos[...]” (p. 225-226)

“’Com o triunfo da revolução, o povo desfrutou pela primeira vez de uma ampla liberdade de expressão. Esta [...] evidencia-se em programas como ‘De cara al pueblo’, onde há um intercâmbio verbal horizontal. [...] O modelo vertical e autoritário entrou em crise. [...] A aparição das massas como protagonistas desse novo processo histórico obrigou a revisar a prática. [...] Ratifica-se mais uma vez a estreita relação que existe entre a política e as maneiras de expressão que existem na sociedade. [...] Em última instância, o modelo político prevalecente tem como resultado que os nicaragüenses tomam parte de uma sociedade falante, de uma sociedade viva, de uma sociedade visível” (p. 226)

“A participação nos meios de comunicação não era, portanto, uma mera casualidade ou uma concessão, mas uma necessidade política, uma forma de ampliar e garantir o envolvimento do povo no processo revolucionário” (p. 227)

  • Participação popular nas rádios

1-      Rádio Segóvia:

“Sua programação voltava-se mais para o dia-a-dia dos camponeses, que constituem mais de 70% da população local. Era uma das emissoras onde a experiência participativa mais se desenvolveu no período revolucionário” (p. 228-229)

“Antes tínhamos um caráter quase mercantil, embora não fizéssemos publicidade comercial. Mas nossa mensagem à população era de caráter vertical, um pouco autoritário” (p. 229)

“A partir de então, ela começou a realizar seminários e reuniões de reflexão. ‘Tratava-se de encontrar uma forma de passar o microfone ao povo. Agora vamos até os camponeses e fazemos diretamente com eles o programa que transmitimos pela rádio. Assim começamos a conhecer um pouco de sua vida. [...] Ele não significa só propiciar o acesso ao gravador e ao microfone. O meio tem que conviver com a população, falar sua linguagem, sentir seus problemas e também buscar soluções’” (p. 229)

“Apesar de ser estatal, ela admitia críticas às instituições, ao governo e ao Estado, o que, de acordo com Banegas, não cerceava os patrocínios. Casos de corte de anúncios por parte de quem se sentiu muito agredido eram raros. ‘Temos sido claros com as organizações, provando-lhes, com as gravações, que quem as levantava era o povo, ao qual não se pode negar esse direito” (p. 230)

“Fazia-se o planejamento prévio de 60% das atividades, ficando o restante por conta da demanda, do momento e da conjuntura. Nele se envolvia todo o pessoal da emissora. ‘Se dizemos que somos uma rádio participativa, temos que começar em casa’” (p. 230)

2-      Rádio Sandino:

[...] “o partido político que se achava no poder e, conseqüentemente, o próprio Estado eram quem promovia esse tipo de participação. Em geral, o que sai da boca do povo censura e põe em cheque o que fazem as entidades e o governo. Como, então, estes permitiam ser questionados e cobrados? Pelas explicações que nos foi dado obter informalmente, isso ocorria porque lideranças sandinistas perceberam na ação de alguns órgãos uma série de distorções, que tinham origem, principalmente, na burocracia e na dificuldade de mudar certos vícios” (p. 231)

[...] “o programa não ficava só na denúncia e na reivindicação, mas na mesma hora ia até os alvos, procurando descobrir porquês e encaminhando soluções” (p. 231)

“Nesse tipo de programa, a emissora abre espaço para a denúncia e dá seqüência ao processo até a solução do problema. Há uma relação direta e de reciprocidade entre emissor e receptor, que chegam a se confundir no processo de comunicação” (p. 232)

  • Integração das emissoras populares estatais

 “A entidade (Corporación de Radiodifusión Del Pueblo) foi criada ‘com o propósito de conduzir o trabalho que [...] vinham desenvolvendo as diversas emissoras confiscadas ou abandonadas por seus donos, por suas ligações [anteriores] com o governo somozista. [...] [Ela] respondia à necessidade de um organismo central para respaldar as rádios regionais, do nascente Estado revolucionário, nos aspectos financeiros, administrativos, técnicos e políticos” (p. 233)

“Em 1983, também passaria a colaborar com as emissoras na capacitação técnica de seu pessoal. E, num terceiro momento, em 1985, daria um grande salto, promovendo e incentivando a rádio participativa” (p. 233)

“’A rádio participativa não é – nem será nunca – um modelo acabado, uma receita fixa. Como a própria vida, [...] [ela] avança e retrocede, se faz e se retifica na experiência de cada dia’” (p. 233-234)

[...] ”Se antes só trabalhavam em função de seus objetivos informativos e culturais, a partir de então tiveram que preocupar-se com a sobrevivência. A introdução da publicidade comercial tornou-se uma necessidade. Mas a entidade orientou as associadas para que não violentassem sua programação nem sua linha participativa por interesses de rentabilidade econômica” (p. 234)

[...] “ela [Coradep] contribuía com seminários sobre gêneros jornalísticos, ações participativas e formatos de programas, cursos específicos para locutores, disk-jockeys, produtores e radialistas, além de estágios em emissoras regionais e da capital” (p. 235)

  • Rádios Guerrilheiras na América Latina

1-      Experiência Cubana:

“Segundo Fidel Castro, em discurso de 1973, a emissora [Rádio Rebelde] foi utilizada ‘para transmitir informações sobre a situação militar e dar os resultados das batalhas e dos combates. [...] Ela nos permitia comunicar-nos entre nós’” (p. 236)

“Politicamente, ela era um meio de informação e mobilização do povo. Estrategicamente, um instrumento de concatenação e organização das táticas militares adotadas pelos insurretos” (p. 236)

2-      Experiência Nicaragüense

“A emissora [Rádio Sandino] ‘fazia reiterados chamados à luta e ensinava ao povo, de maneira pedagógica, como manejar todo tipo de armas e preparar explosivos’” (p. 237)

[...] “a Rádio Sandino foi ‘o principal instrumento de incitação à insurreição e à greve’. [...] Sem uma rádio para orientar o movimento de massas [...], não teria havido o triunfo revolucionário” (p. 238)

3-      Experiência Salvadorenha

“Nesse momento, as forças revolucionárias buscavam formas alternativas de comunicação [...]. [Foi aí que] a Rádio Venceremos passou a ter um importante papel de iniciar a reorganização das lutas políticas” (p. 239)

[...] “sua programação voltava-se exclusivamente para informações, perspectivas e atitudes a tomar com relação à guerra. Nos intervalos, como todas as emissoras similares, transmitia, de forma insistente, músicas extremamente chocantes, que fomentavam o clima de luta” (p. 240)

“Eram muitas as vantagens que ele oferecia como instrumento capaz de, sem grandes investimentos financeiros, promover a comunicação instantânea entre as populações das cidades e dos mais longínquos rincões, onde outros meios têm acesso mais restrito dentro da realidade latino-americana” (p. 234)

  • Rádio Livre

[...] “elas foram aparecendo como forma de protesto contra o controle estatal da radiodifusão, de contestação da política de concessão de canais, de fruição do poder de comunicar, de expressão política ou de posse de uma unidade econômica produtiva” (p. 242)

  • O Brasil reivindica o acesso às ondas

“As rádios livres, mesmo que algumas possam ter sido decorrência de aventuras sem maiores pretensões políticas, são, no conjunto, um protesto contra a forma de acesso aos instrumentos massivos e uma tentativa de conquistar a liberdade de expressão a qualquer preço. Elas contribuíram para o debate sobre a estrutura dos meios de comunicação no Brasil, que também teria lugar na Assembléia Constituinte, mas nunca veio a empolgar setores representativos da sociedade nem conseguiu grandes avanços no texto da nova Lei Magna promulgada em 1988” (p. 245)

“Enquanto isso, continuam em vigência a lei nº 4.117, de 27 de agosto de 1962, o decreto-lei nº 236, de 28 de fevereiro de 1967 – pelo qual o uso das ondas sem a devida autorização constitui crime punível com a detenção do autor, precedida, liminarmente, de busca e apreensão da estação ilegal [...]” (p. 246)

“Enquanto isso, a Rádio Globo de Criciúma, ainda segundo os entrevistados, era toda voltada para o povo, que dizia o que lhe interessava ou não e era respeitado. Ela sabia que era muito ouvida, pela quantidade de visitas e cartinhas que recebia e também pela resposta aos apelos que lançava no ar. [...] E, ao conclamar os ouvintes para um protesto contra o regime autoritário e a união em torno do movimento pelas ‘eleições diretas já’, cerca de 80% dos moradores apagaram as luzes por um minuto” (p. 249)

“Pode-se ver em sua estrutura interna quatro características: primeiro, não houve a formação de lideranças no grupo, responsabilizando-se todos em igual medida pela rádio; segundo, não se estabeleceu qualquer hierarquia, tanto no nível decisório quanto no do exercício das funções; terceiro, o processo de criação era compartido por todos; quarto, a aprendizagem era coletiva, na medida em que experiências individuais eram repassadas e vivenciadas por todo o grupo” (p. 249)

“A Rádio Globo de Criciúma conseguiria a façanha de sobreviver por cinco anos” (p. 250)

  • Rádios livres comunitárias:

“Comunitárias seriam aquelas que, tendo como finalidade primordial servir à comunidade, podem contribuir efetivamente para o desenvolvimento social e a construção da cidadania. Este não é o caso, por exemplo, das rádios que só têm caráter comercial” (p. 253)

[...] “as grandes emissoras tentam ‘barrar o avanço das rádios comunitárias, que estão na prática democratizando a comunicação, dando voz aos excluídos e construindo um novo conceito de comunicação com a participação direta da comunidade, o que assusta os poderosos que sempre dominaram os meios [...] e hoje se vêem obrigados a dividir o dial, o ar e [...] a audiência” (p. 256)

“A rádio comunitária vende espaços para anúncios e busca patrocínios culturais, mas canaliza os recursos arrecadados para custeio, manutenção ou reinvestimento e não para o lucro particular” (p. 257)

[...] “programação que tende a ter um vínculo orgânico com a realidade local, tratando de seus problemas, suas comemorações, suas necessidades, seus interesses e sua cultura” (p. 257)

“Ela possui um sistema de gestão que envolve a participação direta da comunidade, por meio de órgãos deliberativos como os conselhos e as assembléias” (p. 257)

“Ela democratiza o poder de comunicar, proporcionando treinamento a pessoas da própria comunidade, a fim de que adquiram os necessários conhecimentos para produzir programas e falar no microfone, por exemplo” (p. 259)

  • Capítulo 6: Outras experiências de comunicação participativa

[...] “a comunicação participativa na Nicarágua sandinista [...] durante a guerra civil, setores organizados passaram a usar formas alternativas, clandestinas, para elevar o nível de consciência e combatividade do povo” (p. 259)

“O jornalismo de catacumba [...] ‘Foi um jornalismo ágil e dinâmico. Conseguiu realizar no circuito da linguagem o que Pasqualli chama de relação comunicacional. Emissor e receptor intimamente ligados, confundidos [...] Chegaram a cobrir vinte e quatro igrejas em Manágua, repetindo-se a experiência em León, Matagalpa, Masaya, Granada e Carazo’” (p. 260)

“a comunicação verdadeira passa por um intercâmbio de vozes e interesses entre os emissores e os receptores, permitindo que todos passam falar em condições iguais; e que se devia ser criativo na busca de outras maneiras de diálogo com o povo” (p. 260)

“Em 1981, a Unión de Periodistas de Nicaragua, num congresso, estabeleceu que uma de suas linhas de ação seria a formação dos correspondentes populares. [...] As próprias associações de trabalhadores, emissoras de rádio regionais e partidos políticos passaram a pedir cursos de capacitação para os membros designados para essa tarefa, entre os quais havia aqueles que mal tinham aprendido a ler ou nem sabiam escrever, mas queriam enviar notícias” (p. 261)

“Os correspondentes populares [...] era gente do povo, que usavam a linguagem dos camponeses, abordando os problemas e o dia-a-dia destes, o que ampliava a sua capacidade de influenciar e garantir a audiência” (p. 264)

“A revolução nicaragüense havia sido feita para resgatar o povo da opressão e permitir-lhe desenvolver-se em liberdade” (p.265)

“uma outra prática participativa, representada pelo cassete-fórum, [...] intercambiando mensagens gravadas em fitas sonoras, esse tipo de veículo permite estabelecer um diálogo entre a base de uma organização popular e o seu núcleo dirigente, assim como dos grupos de base entre si, numa comunicação de duas vias” (p. 265)

“O cassete-fórum implica todo um processo no que se refere à produção e circulação das mensagens entre as duas direções” (p. 265)

“Emissão e distribuição: a coordenação central produz uma mensagem igual, sobre um tema, um problema ou uma proposta em comum, grava-a em um só lado das diversas fitas, que são enviadas a todos os grupos” (p. 266)

“Audição e retorno: cada grupo ouve, comenta e discute a mensagem, registrando as suas opiniões [...]no outro lado da fita original, que é devolvida a coordenação central” (p. 266)

“Decodificação e análise: todas as fitas recebidas são avaliadas pela coordenação central, que decodifica e analisa as mensagens vindas das bases” (p.266)

“Edição e reenvio: as mensagens, depois de selecionadas, resenhadas e editadas com as palavras dos próprios participantes, acrescidas de uma nova proposta comum, são postas em outras fitas, de novo enviadas a todos os grupos, para que cada um se informe das opiniões dos demais e possa confrontá-las com as suas próprias” (p. 266)

“as mensagens circulam num fluxo de ida e volta, tornando-se todos os envolvidos, alternadamente, emissores e receptores” (p. 266)

“O homem popular descobre o valor de ‘dizer sua palavra’, como escreveu Paulo Freire” (p.267)

“Para Kaplún e Merino Utreras, são muitas as vantagens do cassete-fórum como meio de comunicação” (p.267)

“Para a coordenação central não se requerem senão fitas, uma simples sala de gravação e um copiador, [...] Os grupos de base só precisam de gravadores, [...] além de as fitas poderem ser reutilizadas” (p.267)

“Flexibilidade: cada grupo realiza seu fórum no dia e na hora que lhe forem mais convenientes” (p. 268)

“Registrada, a mensagem não se perde facilmente no ar, como no rádio, pois pode-se ouvi-la mais de uma vez, voltar a fita para repetição de passagens durante as discussões e reproduzi-la para ser trabalhada por outros grupos” (p. 268)

“O sistema não depende da obtenção de um espaço, como o rádio, que custa caro e, mesmo podendo-se pagá-lo, as vezes, é de difícil acesso para fins de educação popular, mormente e horários adequados” (p.268)

“Quando os grupos começam a fixar e a ouvir sua própria voz reproduzida, [...] o meio-gravador vai perdendo seu poder de dominação e seu prestígio até certo ponto ‘místico’. Eles vão se acostumando a manejá-lo” (p.268)

“O fato de oferecer a possibilidade de os grupos participarem de viva voz no programa é uma das principais vantagens do cassete-fórum” (p.268)

“Os grupos populares podem expressar-se na linguagem simples e corrente de seu dia-a-dia, tornando-se a comunicação mais rica, viva e autêntica” (p. 268)

“Foram muitas as experiências feitas com cassete-fórum, no âmbito da educação popular, em países latino-americanos. Aqui exporemos alguns aspectos de uma iniciativa uruguaia, que, idealizada por Mário Kaplún, foi desenvolvida de abril de 1977 a março de 1978, pela Calforu – Cooperativa Agrária da Sociedade de Fomento Rural” (p.269)

“Ela enfrentava o problema da escassa consciência associativa dos pequenos produtores, tendente ao individualismo e à resistência a soluções comunitárias” (p.269)

“Os objetivos específicos da experiência posta em prática [...] resumiam-se em: estabelecer um fluxo de informação bidirecional, da coordenação central para as bases e vice-versa; criar canais de consulta e de tomada de decisões em comum; estimular uma participação mais ativa dos afiliados; [...] tornar mais dinâmico o movimento cooperativo rural, atraindo a juventude às suas bases [...] fomentar a intercomunicação das cooperativas de base entre si, de modo a se sentirem como partes de um todo” (p. 270)

“A instituição deu início ao processo, preparando e distribuindo quinzenalmente uma fita-cassete. Os grupos, ao recebê-la, faziam uma reunião, dirigida por um membro escolhido por todos. Ouviam uma mensagem, descutiam-na e depois gravavam no outro lado suas dúvidas e sugestões, além de propostas de novos temas, devolvendo-a à central. Uma equipe escutava e analisava o feedback, elaborando a seguir uma nova fita, que reproduzia algumas das contribuições vindas das bases, acrescidas de respostas a questões levantadas, de reportagens e do tema para o fórum seguinte” (p. 271)

“A prática mostrou que os grupos se limitavam a analisar sumariamente as propostas da direção central e que os canais abertos, de forma efetiva e permanente, não eram aproveitados na medida esperada” (p. 272)

“Os camponeses revelavam-se pouco receptivos às soluções comunitárias” (p. 273)

A experiência mostrou como reproduzir valores ideológicos e culturais é mais fácil do que transformá-los. Por isso, é necessário superar triunfalismos, como o de se achar que a comunicação popular é necessariamente libertadora, e assumir uma atitude crítica ante as suas mensagens” (p. 274)

  • Capítulo 7: A comunicação popular na construção da cidadania

 “A Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece, em seus artigos 27 e 29, que todos os homens têm o direito de participar livremente da vida da comunidade e que, por outro lado, têm deveres para com esta mesma comunidade, na qual é possível o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade” (p. 275).

 “A participação popular é um direito humano, um dever político e um instrumento essencial de construção nacional” (p. 275).

 “A histórias mostra que as nações respeitam esses princípios fundamentais em menos ou maior grau, dependendo da cultura de cada povo, das oportunidades, da conjunção de forças e dos interesses dominantes” (p. 275).

 “No Brasil e em outros países latino-americanos, ela (a comunicação social) tem sido obstacularizada pelo Estado e por setores dominantes, que, por sua posição hegemônica ou pela imposição, acabam ganhando a cumplicidade da sociedade como um todo, embora haja resistências” (p. 275 e 276).

“Dentro de toda dinâmica histórica, instituições, grupos e movimentos sociais das classes subalternas vêm constituindo um processo de auto-organização e de comunicação” (p. 276).

“Em matéria de comunicação, não basta incentivar o envolvimento. É necessário criar canais para tanto e mantê-los desobstruídos” (p. 276).

 “A era pós-industrial é uma síntese do progresso e do atraso” (p. 276).

 “Urge que os meios massivos poderosos, ao mesmo tempo em que desenvolvem um elevado padrão tecnológico, artístico e mercadológico, também o façam no campo filosófico, para o bem da sociedade como um todo, em sua pluralidade e diversidade, revendo a filosofia que os leva a serem movidos mais por interesses econômicos e políticos de determinados segmentos” (p. 277).

 “Não é suficiente e não leva a muita coisa pôr-se simplesmente as manipulações realizadas pelos grandes sistemas de rádios, televisões e jornais. Há que se procurar ocupar os espaços abertos e propugnar pelo acesso a esses veículos, por sua descentralização e por seu reordenamento ético-político”  (p. 277).

 “Para Demo [Participação é conquista, 1988, p. 67 a 69], a participação tem como objetivos: a autopromoção, a realização da cidadania, a definição das regras do jogo, o controle do poder, a moderação da burocracia, a prática da negociação e a construção de uma cultura democrática” (p. 278).

 “Significa a pessoa deixar a condição de “paciente” de outros e de instituições, sob os aspectos político, social e econômico” (p. 279).

 “A burocracia pública é um fenômeno deprimente quando ‘voltada para si mesma, emperrada e alienada do serviço à comunidade’” (p. 280).

 “É no dia-a-dia, no relacionamento com as instituições que afetam diretamente a vida das pessoas, como uma associação de moradores ou poder público local, que se firmam os alicerces da educação para a cidadania” (p. 282).

 “Quer dizer, é preciso haver comunicação, sem a qual não pode existir a participação, segundo Bordenave” (p. 283).

 “A ‘polis’ integralmente constituída correspondia a uma sociedade politizada, na qual a esfera pública ocupava um território mais amplo na vida dos cidadãos e estava situada num plano muito mais elevado de importância do que os assuntos privados dos indivíduos. [...] A ‘polis’ baseava-se na ação coletiva, portanto, na liberdade coletiva. A cidadania refletia a integração do indivíduo à coletividade política” (p.284 e 285).

 “Dependendo do período histórico e do país ou lugar, só uma parcela da população pode exercer plenamente a cidadania” (p. 285).

 “A cidadania é conformada por três tipos de direitos, que podem configurar-se, ou não, de maneira mais abrangente ou mais restrita, na práxis de um povo: os civis, os políticos e os sociais” (p. 286).

 “A ampliação da cidadania levará o homem e a mulher a serem, cada vez mais, sujeitos e não objetos da história” (p. 287).

 “No Brasil, como em outros países latino-americanos, as conquistas, no que se refere a uma participação política, tem sido crescentes” (p.287).

“O mesmo não está ocorrendo quanto a uma democratização maior do campo sócio-econômico. A concentração de renda aumenta e a distribuição de riqueza é cada vez mais desigual, gerando-se de vastos contingentes populacionais desprovidos do necessário à vida, com mais de trinta e dois milhões de seres humanos passando fome. [...] As pessoas não são envolvidas nos planos e nas decisões que as afetam diretamente, nas áreas de habitação, da saúde e da comunicação” (p.287).

“Esses veículos geralmente estão próximos ao local de moradia, de trabalho e de recreação, tendo, por isso, uma grande potencialidade no que se refere a facilitar a participação. Mas há que se descobrir maneiras de conferir à população o poder de criar e de decidir. Só assim a comunicação se torna meio e fim, ou seja, meio e fim se constroem reciprocamente” (p. 288).

“Mas, se a estratégia for a ampliação do status da cidadania, é preciso que, levando em conta seu grau de escolaridade e de experiência, se empreguem táticas que favoreçam o aprendizado crescente da participação. [...] Trata-se de um processo que, por nossas especificidades histórico-culturais e educacionais, tende a ser lento” (p.288).

“ [...] É perfeitamente viável que a base eleja democraticamente os integrantes da equipe coordenadora, conferindo-lhes um mandato temporário (para evitar o risco de se tornarem donos da comunicação) e revogável (para substituí-los se não cumprirem sua missão). A participação não elimina a representação” (p.289).

“[...] Os canais abertos devem permanecer desobstruídos e acessíveis” (p.290).

“O trabalho, as decisões, as vitórias e os fracassos podem ser compartilhados por todos os membros. Mas, democracia interna não significa cada um fazer o que bem entende” (p.290).

“Admitir o sectarismo no processo comunicativo seria totalmente contrário ao espírito participativo, por se tratar de uma atitude acintosamente antidemocrática” (p.290)

“Em suma, a população, a comunidade ou o associado tem como participar ativamente de sua comunicação. [...] O como-fazer democrático, no processo comunicativo, é parte da construção do homem-sujeito” (p.290 e 291).

“Manter programas e matérias total ou parcialmente sustentados numa participação popular ampla, propiciando o acesso ao microfone, ao jornal e a outros veículos. [...] É importante que se reproduzam o mais possível as falas e os textos das próprias pessoas e não apenas se faça sua interpretação ou edição” (p.291).

“Incentivar a produção de peças teatrais, debates e outras formas de comunicação” (p.291).

“Montar e aplicar pesquisas de opinião, para colher subsídios que ajudem na produção de uma comunicação sintonizada com a realidade, as necessidades, os gostos e os interesses da população” (p.292).

“Socializar os conhecimentos técnicos a pessoas que não fazem parte da equipe coordenadora, por meio de cursos rápidos ou oficinas de capacitação, com vistas a uma eventual ampliação ou renovação dos quadros” (p.292).

“Avaliar o processo e os resultados junto com todos os envolvidos [...] pois os métodos tradicionais do feedback são importantes, mas insuficientes” (p.292).

“Produzir uma comunicação que corresponda mais aos interesses dos destinatários, sem perder de vista seu valor educativo e político, usando linguagens adequadas e que estabelecem empatias” (p.293).

“Proporcionar condições para que a população participe de forma crescente no processo de produção, planejamento e gestão dos meios de comunicação comunitários locais” (p.293).

“Fazer-se cada vez mais presente nos grandes meios de comunicação de massa, divulgando realizações, lutas e reivindicações dos setores organizados das classes subalternas e contribuindo para que se instaure neles uma nova ética e um compromisso efetivo com a sociedade como um todo” (p.293).

“Adequar os veículos de comunicação popular às condições da audiência e da recepção, pois não adianta muito produzir um jornal para uma população de maioria analfabeta ou um programa de rádio que não desperta interesse” (p.294).

“Assegurar a autonomia ideológica, política e metodológica” (p.295).

“A participação e a comunicação representam uma necessidade no processo de constituição de uma cultura democrática, de ampliação dos direitos de cidadania e da conquista da hegemonia, na construção de uma sociedade que veja o ser humano como força motivadora, propulsora e receptora dos benefícios do desenvolvimento histórico” (p.296).

  • Conclusão

[...] percebemos que a participação na elaboração de mensagens, na produção de programas, no planejamento e na gestão da comunicação está bastante democratizada ao âmbito das equipes que, em geral, têm o veículo em suas mãos” (p.297).

“[...] já existem experiências mais avançadas, como a da Rádio Enriquillo, na República Dominicana, e a do cassete-fórum, no Uruguai, nas quais a população se envolve na produção de programas” (p.297).

“Podemos depreender ainda que, onde se abriram canais de participação, estes foram aproveitados, embora nem sempre num grau que correspondesse plenamente às expectativas” (p.298).

“Isso confirma que o aprendizado do processo participativo é lento. Além do mais, quando o espaço é cedido de cima para baixo, tende a ser de mais difícil assimilação. As causas estão nas raízes culturais e históricas das sociedades latino-americanas, que, por um lado, geraram uma certa apatia e um sentimento de inferioridade dos “que sabem [...]” (p.299).

Acham alguns que a participação cogestionária e autogestionária na comunicação popular é algo sem sentido, fora de moda ou utópico” (p.299).

“E, se é verdade que os instrumentos massivos chegaram hoje a um grau de desenvolvimento sem igual, também os meios comunitários locais e regionais vêm ganhando espaços em muitos países” (p.300).

“É assim com os movimentos populares, que há mais tempo se colocam em função da mobilização e organização da sociedade civil, na busca do alargamento da cidadania. [...] Ela contribui com maior ou menor intensidade para a democracia, dependendo dos instrumentos, das formas e da metodologia que utiliza” (p.301 e 302).

“As experiências mostram que a comunicação popular participativa dá seu aporte à edificação de uma cultura e uma educação democrática. [...] Dá voz, pela própria voz, a quem era considerado “sem voz””. (p.302).

————————————————————————————————————————————————-Poesia lida por João Gabriel

O QUE PROCURO EU, NÃO SEI !

Eu reuni muita coragem,
Para sair procurando
E para fazer esta viajem,
Não sair a esmo caminhando.
 
O que procuro eu, não sei!
Mas sei que falta algo em mim
E não está por onde já passei.
Quem sabe estará na mesma estrada, bem no fim!
 
Dizem que no final do arco-íris,
Tem um pote de ouro,
Não busco esmola, não tenho na mão um pires,
Tão pouco quero um tesouro
 
Talvez busque a verdade…
Talvez a razão…
Quem sabe a felicidade
Ou paz no coração
 
O que eu procuro, o que procuramos todos,
Sim, porque não há quem não tenha algo a procurar.
Procurando podemos encontrar até flor no lodo
Ou um ombro amigo em que se possa soluçar.

———————————————————

Fanzine – FALA ALTO – Raissa Nascimento

Link: http://www.unicap.br/assecom2/boletim/2009/Agosto/boletim_12.08.2009.html

Vídeo: Grupo de Mulheres Ativas e, Projeto Juventude, Arte e Cultura, apresentados no programa AÇÃO, rede Globo, em 05/06/2010

“Agora a gente conhece o mundo e o mundo conhece a gente” – http://g1.globo.com/acao/noticia/2010/06/atuacao-das-mulheres-e-fundamental-para-melhorar-convivencia-do-sertanejo-com-caatinga.html

“Pra gente ser alguém não precisa sair do seu lugar, aqui a gente faz a diferença” (Josias Lopes, estudante, Projeto Juv. Arte e Cultura) – http://g1.globo.com/acao/noticia/2010/06/projetos-com-foco-na-educacao-sao-caminho-para-evitar-o-exodo-rural-de-jovens-na-caatinga.html

Equipe: Gabriela Vasconcellos e Rafaella Coelho

  1. Instrumentos e Efeitos da Comunicação Coletiva
  • “Comunicação é o problema fundamental da sociedade contemporânea – sociedade composta de uma imensa variedade de grupos, que vivem separados uns os outros pela heterogeneidade de cultura, diferença de origens étnicas e pela própria distância social e espacial.” (p. 53)
  • OS grupos são organizados por um interesse/objetivo em comum. Seja ele político, religioso, econômico, etc.
  • Os grupos são distintos, mas há algo em comum entre eles: se juntam com o objetivo de adquirir sabedoria e experiência para sobreviver e garantir a procriação da espécie – já que juntos se tornam mais fortes – entretanto não veem que isso tudo o que buscam só se consegue através da comunicação, pois é nela que eles fazem o intercâmbio de informações, ideias e sentimentos.
  • Em conseqüência à diversidade dos grupos existentes, a comunicação face a face, pessoal, tornou-se limitada e lenta por não atingir uma grande quantidade de pessoas. ”Para a sociedade de massa, exige-se comunicação maciça e coletiva”. (p. 54)
  • O autor defende que a comunicação coletiva é um diálogo tanto como a comunicação pessoal. É a comunicação para quem quiser escutar.
  • Na comunicação coletiva o comunicador exerce apenas uma função: a comunicativa. O que faz com que não haja interrupção entre o comunicador e o receptor, uma vez que o comunicador que está comunicando para a massa também tem, como a comunicação privada, a reação, o feedback do receptor – de uma forma diferente, mas tem.
  • “Nos tipos de comunicação direta, a avaliação é automática, facilitada pela singeleza do processo. Mas na comunicação coletiva a reação tem de ser inferida: há que captá-la, analisá-la e submetê-la a confronto com outros fatos e circunstâncias sociais, sob diferentes ângulos e adotando diferentes critérios e métodos. A avaliação, aqui, deixa de ser automática para ser ponderada.” (p. 55)
  • Dessa forma, “a simples aquisição de dados numéricos é insuficiente para apurar e analisar os efeitos que as mensagens provocar nos receptores e as reações deles diante dessas mensagens” (p. 56). Para conseguir analisar mais profundamente esses comportamentos é preciso: saber a situação socioeconômica e cultural da comunidade como um todo; a personalidade dos grupos, entre outros.
  • Depois de feita essa análise sobre os efeitos da comunicação, o comunicador vai conhecer os seus ouvintes e, dessa forma, escolher os conteúdos e alterar a forma de passar suas mensagens. Esse é o trabalho de interação que caracteriza a comunicação coletiva.
  • Sem o diálogo “os grupos organizados não entrarão m comunhão com as diversas outras camadas da sociedade, ficando assim privados da plena obtenção dos seus fins, do cumprimento satisfatório da sua missão, e, por conseguinte, com os seus interesses definidos ameaçados. (p. 57)

 2. Dicotomia Ético-cultural: Elites e Massa

  • A atualidade brasileira oferece uma dicotomia ética e cultural entre as elites intelectuais e dirigentes e a massa rural e urbana marginalizada, que utilizam veículos e falam linguagem diferente, estando assim prejudicando o diálogo. (p. 59) A frase revela a dicotomia existente entre essas classes sociais. Dicotomia esta que provoca a quebra da unidade do pensamento; a fragmentação doa lutas e reivindicações.
  • Essa dicotomia existe na oposição entre Estado e Nação, entre elites e dirigentes e massa urbana e rural. (p. 59)
  • O autor aborda que hoje em dia isso piorou. O que é irônico, uma vez que o passar do tempo provoca amadurecimento de algumas fragilidades e ideias. Na sociedade colonial, por exemplo, “o criador de gado, o bandeirante, o senhor e engenho operam em áreas sócias diversas, mas entendem-se”. (p. 60)
  • Paradoxalmente o que provocou essa quebra na unidade de pensamento foi o surgimento e popularização dos jornais. O motivo é que eles se tornam porta-vozes das elites, abandonando as camadas mais populares.
  • A partir dessa fragmentação, os movimentos sociais e as grandes alterações políticas e sociais passaram a ser iniciativas e realizações das elites. O povo ficava cada dia mais apático e indiferente.
  • A conseqüência disso foi que as elites continuaram no poder e sem se preocupar com o povo. “A nossa elite, inclusive a elite intelectual, tem o folk-way das classes trabalhadoras das cidades e do campo apenas como objeto de curiosidade, de análise mais ou menos romântica e literária”. (p. 62)
  • Mas o povo, teimoso e obstinado, conserva a sua inteligência e, através dela, passam os episódios e fatos gerais que julgam comuns e irresistíveis. (p. 62)
  • Lancelot Hogben fixou bem o perigo que existe no desconhecimento dos meios de comunicação pelo povo de uma civilização, seja desenvolvida ou em via de desenvolvimento. Para ele “Se algumas das civilizações do passado não sucumbiram à pressão exterior até que perderam a sua capacidade de ulterior crescimento porque seus meios de comunicação eram inadequados para obter o esforço da comunidade para o desenvolvimento cultural”. (p. 63)
  • Dessa forma, as classes populares realizaram sua comunicação através de seus próprios veículos – folhetos, volantes, atos de presença – se opondo, assim à vontade das elites. E embora isso “não conseguido sensibilizar a atenção das elites dirigentes e culturais [...] desperta nossa lideranças para o problema da comunicação como ponto de partida da nossa caminhada para o progresso”. (p. 64)
  • Percebe-se, assim, que os meios de comunicações não auxiliam o público para compreender o que está acontecendo e descobrir novos rumos.  Dever jornalístico é distorcido. 

3. O Líder de Opinião

  •  A importância do líder de opinião para suprir a ineficiência dos meios de comunicação e promover a interação social é muito significativa.
  • Pesquisas feitas e abordadas nesse capítulo mostram que estavam equivocadas as crenças de que os meios de comunicação era os todo-poderosos e exerciam influência direta e decisiva na opinião das pessoas.
  • “Para que a mudança se verificasse, uma outra influência se colocava ente os meios e o grupo afetado: a influência do líder de opinião.”  (p. 67)
  • A figura do líder se caracteriza pelo sujeito que recebe e decodifica as mensagens dos meios e as transmite em seguida ao seu grupo; é o representante que tem o mesmo interesse/objetivo do grupo que representa; quem tem o acesso às informações.
  • Antes acreditava que esse “processo era denominado “fluxo da comunicação em dois estágios” – dos meios aos líderes e deste aos seus amigos mais próximos”.  (p. 68)
  • Entretanto, pesquisas mais recentes substituíram a hipótese do “fluxo de depois estágio”: os líderes de opinião, por sua vez, buscavam conselho e informação com outras pessoas – num processo que Lazarsfeld denominava “fluxo em múltiplo estágios” – dos meios de comunicação coletiva, através de vários líderes que se comunicam entre si, para os grupos liderados. (p. 69)
  • A conquista da liderança está ligada à credibilidade que conquistou no seu ambiente de convivência com os outros indivíduos e a capacidade de decodificar as mensagens e repassá-las ao nível de entendimento dos seus receptores.
  • Dessa forma, o líder de opinião tem essa capacidade: É um tradutor, que não somente sabe encontrar palavras como argumentos que sensibilizam as formas pré-lógicas que caracterizam o pensamento e ditam a conduta desses grupos sociais. (p. 70)
  • A figura do líder é importante não apenas para o cumprimento da missão na sociedade, mas pra o a própria sobrevivência e manutenção desses grupos, pois eles precisam valer-se mão apenas dos grandes maios de comunicação do seu patrimônio e dos comunicadores de seu próprio ambiente como, ainda, dos líderes de opinião populares, armados, por seu turno, de recursos e veículos que apenas eles possuem e sabem manejar.

4. Folkcomunicação: intercâmbio de mensagens

  • Folkcomunicação é o processo de intercâmbio de mensagens através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente a folclore e, entre suas manifestações, algumas possuem caráter e conteúdo jornalístico, constituindo-se em veículos adequados à promoção de mudança social. (p. 73)
  • A dicotomia existente no Brasil fez com que de um lado ficasse a elite e de outro os marginalizados; de um lado os que podem se utilizar dos grandes meios de comunicação e do outro os que tinham crenças nos seus “catimbós” e rejeitavam. (p. 74)
  • Esses “catimbós” era o processo pelo quais as camadas mais populares e ditas menos cultas se informavam e cristalizavam suas mensagens e informações.
  • Se a comunicação jornalística era essencial à formação das crenças e das decisões que impulsionam os indivíduos e as sociedades à ação, evidentemente aqueles catimbós tinham de ser veículos jornalísticos. (p. 75)
  • Da mesma forma que o modo de reinterpretar e readaptar os conteúdos dos grandes meios de comunicação para repassá-los com sua linguagem e realidade para o grupo, podem ser considerados como processo jornalístico.
  • Para alguns, dar ouvido a esses indivíduos teria sido perda de tempo. É que eu não esquecera da lição da Lazarsfeld de que os líderes de opinião não se encontram particularmente nas classes mais cultas ou entre pessoas de maior prestígio da comunidade “mas distribuem-se de forma bastante equilibrada por todas as classes e profissões” (p. 76)
  • Uma característica predominava entre esses agentes-comunicadores selecionados e nas modalidades que adotavam para a transmissão das suas mensagens – a característica folclórica. (p. 77)
  • Essas formas de expressão se firmavam em costumes e práticas vindas dos antepassados e pertenciam agora ao folclore – menosprezado pelos senhores, que atribuíam a ele o valor de circo romano. Essa visão veio em conseqüência da fragmentação da sociedade que acontecia que prosseguia por todo o século IV e teve o ápice com a abolição da escravatura, uma vez que os escravos engrossaram a camada “marginalizada” da sociedade. Incorporando a ela vigoroso patrimônio sociocultural que não era entendido pelas elites. (p. 77)
  • Essas estórias e lendas, transmitidas através de simbolismo para o povo, acontecem até hoje – na forma de folhetos impressos, na literatura de cordel, nas celebrações, entre outros. (p. 78)
  • As mensagens transmitidas através desses processos comunicativos singulares produzem efeitos os mais decisivos no ânimo e no comportamento da massa apática às solicitações do jornalismo ortodoxo. (p. 79)
  • Folkcomunicação é, portanto, esse processo de intercâmbio de informações e significados, através de agentes e meios ligados ao folclore.
  • A folkcomunicação também se especializa e tem suas características particulares. E ela, dentro da sua realidade, tem condições de jornalismo. Mas não são todos os fenômenos folclóricos que têm. (p. 80)

5. Comunicação no Brasil Pré-cabralino

  • Com a chegada dos portugueses no Brasil, o povo indígena perdeu a sua pureza, perdeu o seu próprio ritmo. (p. 85) 

5.1 – O idioma Tupi

  • “entre os povos primitivos, que não tinham a arte de escrever e para os quais as línguas estrangeiras eram tão ininteligíveis como o canto dos pássaros ou os gritos dos animais, muito natural era que só considerassem como língua de gente a sua própria [...]. Assim como para o selvagem aquele que fala a sua língua ele reputa do seu sangue, e como tal seu amigo, assim também julga que é inimigo aquele que não fala.” (p. 87)
  • Se desde os índios , inimigo era aquele que não falava a sua língua e era como o canto dos pássaros (impossível de ser entendido) hoje eu dia é a mesma coisa: a mídia fala em uma língua que a grande maioria das pessoas, simplesmente, não entende.
  • Por isso era tão importante para os brancos aprenderem a língua tupi, para conseguirem se comunicar com os índios.
  • Era em tupi que os índios contavam o que tinham feito durante o dia, uma espécie de diário, que realizavam as reuniões para decidir o futuro da tribo e que contavam o que sabiam: recordações passadas, estórias, informações importantes… Dessa forma, o governo ficava a mercê do indígena e do colono, que começavam a se juntar e se entender. Por isso… (p. 88-89)
  • Em 1727 foi proibido falar a língua tupi no Brasil, para que o colonizador tivesse mais poder sobre o colonizado. E não o contrário. Mostrando, mais uma vez, a importância da comunicação nesse processo de poder. (p. 88)

 5.2 – Os meios de comunicação

  • Já que não conheciam a escrita, o índio se via obrigado a criar novas formas de comunicação: tambor de aviso, sinalização com fogueiras e rolos de fumaça, desenho nas margens dos rios. (p. 91)
  • Sabe-se que os índios mantinham contato com as tribos vizinhas e esses contatos se realizavam especialmente nas festas tribas. E os pajés eram os agentes de comunicação das tribos, cada uma tinha o seu. (p. 92)

 6. Comunicação no Brasil Colonial

 6.1 – Os jesuítas e a informação

  • “os jesuítas, pelo domínio da informação, estabeleceram e consolidaram o seu poder”. (p. 97)
  • Foi a reportagem detalhada do que acontecia em todos os lugares do mundo que deu à Ordem a admirável plasticidade que a tornou num dos mais importantes fatores para a construção do mundo moderno. Reportagem que ultrapassava os limites do seco relatório para se fazer veículo do comentário. (p. 99)
  • Para que os jesuítas conseguissem dizer aos índios o que eles queriam de verdade, tiveram que chegar mais próximo deles. Usaram peças teatrais para facilitar a comunicação. (p.101) Eles se adaptaram à realidade do índio, viveram a vida deles e, assim, conseguiram a sua confiança e atenção. – mediador.
  • Ao mesmo tempo, eles tinham a informação e não diziam totalmente aos índios, manipulavam-os. Usavam da informação. Mais uma vez, percebe-se o valor da informação na história brasileira.

 7. Folkcomunicação: Manifestações e Veículos no Brasil

 7.2 A linguagem popular

  • “Paradoxalmente, o surgimento da imprensa, cuja posse fica com as elites intelectuais e os dirigentes, não contribui para a manuntenção e o fortalecimento da unidade brasileira, cindindo-se a Nação no período regencial e desenvolvendo-se entre as popelações rurais e proletárias urbanas uma linguagem específica, que recolhe informações e se expressa somente através de agentes de meios de natureza e forma folclórica.”
  • A cada dia é mais profunda a distância entre o povo e a elite, pois a cada dia a evolução social e econômica influenciam mais.
  • Nos “catimbós”, formas de comunicação do povo, está a linguagem desse povo rude.
  • “As classes populares têm, assim, meios próprios de expressão e somente através deles é que podem entender e fazer-se entender.” (p. 125)
  • “É através desses veículos e agentes que as camadas populares organizam uma consciência comum, preservam experiências, encontram educação, recreio e estímulo.” (p. 125) É dessa forma que se constroi o subconsciente coletivo do povo.
  • Se as elites quiserem falar com o povo, terão que falar na língua deles. (p. 126)

 8. A Informação Oral

8.1 – Os cantadores

  • O cantador normalmente é analfabeto, poucas vezes sabe ler. Entretanto é uma figura muito importante no meio rural em que vive. (p. 128)
  • Como as pessoas respeitam muito e, assim, prestam muita atenção. Os cantadores são, de fato, informantes, jornalistas.
  • Registrar, criticar, influir na vida de comunidade por meio do verso. São algumas das utilidades dos versos.
  • Para que fosse possível escrever os versos, os cantadores tinham que estar muito bem informados e, muitas vezes, precisa-se da experiência colateral de quem está recebendo a informação para entender. Por isso essa prática é tão informativa. (p. 136)

 8.2 – O caixeiro-viajante

  • “Elo vivo entre o homem rústico do interior e a grande vida qie corre lá fora.” É assim o caixeiro-viajante. Um homem que tem uma atmosfera diferente, com os ares da civilização. Está sempre em contato com a cidade e com o meio rural.
  • Fala sobre tudo, mas não aprofunda em quase nada. É nesse leva-e-traz de informação, nessa troca de impressões e opiniões que está a sua mais viva contrinuição à divulgação de fatos e idéias.

 8.3 – O chofer de caminhão

  • “Os choferes conversam para matar o tempo, às vezes para vencer a fadiga e o sono de horas e horas ao volante, ou enquanto carregam e descarregam as mercadorias.”(p. 149) As notícias circulam, os interlocutores não se conhecem mas a informação é passada de um lado para o outro do país.

 9. A Informação Escrita

 9.1. – Os folhetos

  • Os folhetos pertencentes à literatura de cordel, são o jornal, o romance do trabalhador da zona rural. Neles estão registradas as impressões do povo a respeito de acontecimentos sucedidos no município, no Estado, em todo o país. É a maneira de ver e analisar os fatos sociais, políticos, religiosos da gente rude, denuncianado costumes, atitudes, preferências e julgamentos. (p. 151)
  • Os folhetos contêm poemas dos cantadores e são vendidos nas feiras, praças, pátios das igrejas. Em todo norte e nordeste brasileiro. Normalmente, forma-se uma roda em volta do folheteiro que começa a ler e interpretar o que está escrito. Quando gostam, ou do romance ou quando o fato chama a atenção, as pessoas compram para soletrar ou pedir para quem saiba ler, fazer isso de novo até eles decorarem as rimas. (p. 152)
  • Observa-se, então, a grande importância do folheteiro. Mais uma vez o papel de mediar a informação com quem não tem acesso a ela de forma que toque o receptor.
  • Esses poetas veiculam o sentimento de alma coletiva: “o claro reflexo da insatisfação, dos desassossego, da falta de assistência de que se ressente o homem da interlândia. Contra uma injustiça que se exerce denro da fria e rígida letra do código, sem atenção para a especialíssima situação em que se encontram as massas ignorantes e esquecidas das imensas regiões interioranas.” (p.154)
  • Muitos pensam que as massas não têm consciência do descaso e do abandono. Mas, para espanto de muitos, eles sabem e, muitas vezes, falam sobre esse tema nos seus meios de expressão. O folheto é apenas um deles.
  • Uma característica da notícia dos folhetos é que ela vem sempre com um comentário apaixonado. Uma vez que a massa não está dirigida ao obejtivo jornalístico. As pessoas querem o fato e a opinião. Como deveria ser na mídia convencional,  a notócia e os desdobramentos dela. (p. 156)
  • “Os poetas-jornalístas dos folhetos de época são autênticos intérpretes do seu público: conhecem as suas idéias, sentes seus problemas, aspiram suas aspirações, vivem sua vida, podem falar com ele porque são parte integrante dele.” (p. 156) “De outras vezes, o poeta-jornalísta resume, sintetiza, com o mesmo objetivo: tornar acessível à compreensão da massa rude um tema difícil que, na linguagem oficial, ficaria ignorado.” (p. 159)
  • Dessa forma, com a notícia preparada especialmente para eles, a massa vai formando a sua opinião. (p. 162)
  • Sabendo desse aproximação que existe do folheto com o povo, os políticos se aproveitam e fazem campanhas através deles. (p. 165)
  • Observa-se nos folhetos um tema frequente: a aspiração da massa trabalhadora rural e urbana por uma reforma de base, que a liberte da miséria e da opressão, que proporcione justiça, trabalho e educação. (p. 170)
  • O folheto divulga a ética, a moral e o pensamento (crítica) do povo. (p.172) Também os entretenimentos, as alegrias, os folguetos, os entusiasmos. (p. 174)

 9.2 – Os almanaques

  • Os almanaques são publicações editadas anualmente, contendo, em regra, o calendário, cálculos astronômicos, festas, fixas e móveis da Igreja, correspondência das eras históricas, e, ainda, previsões meteorológicas, horóscopos, informações agrícolas, problemas charadísticos, advinhas, palavras cruzadas… Eles podem ser de informações gerais (instruir e entreter) ou especializados (religiosos, literários etc) (p.176/177)
  • Entretenimento e educação. (p. 177)
  • No Brasil surgiu em 1811 e em Pernambuco em 1860. (p. 182)
  • O surgimento dos almanaques nacionais de grande tiragem e o desenvolvimento da imprensa diária sob o incentivo da publicidade organizada em agências, foram fatores decisivos a eliminação de vários almanaques regionais. Diminuindo bastante a informação local, “desvalorizando” os acontecimentos locais e tendo que atender aos grandes centros econômicos urbanos. (p. 183)
  • Surgiram, nessa época, os almanaques de cordel – pequenos folhetos, simples, impressos manualmente e redigidos por um amador – que foram resistentes aos fatores que fizeram sumir as publicações editadas na capital. (p. 184)
  • “A linguagem do almanaque é das mais acessíveis à mentalidade dos seus leitores.” (p. 187) Essa linguagem faz com que seja através desse veículo que as pessoas mais humildes tenham acesso à informação e a conselhos que não os livros, jornais e revistas tradicionais “nunca atingiriam o seu conhecimento e compreensão.” (p. 192)
  • Os propósitos dos almanaques são: “transmitir coisas simples e úteis, visando ao bem-estar do homem, preveni-lo contra adversidades, anunciar-lhe bons tempos para o plantio, para a colheita, para os empreendimentos, contar-lhe os segredos dos astros, os mistérios contidos nos velhos alfarrábios, as lendas e os fatos do passado, as ocorrências do presente, alguma coisa segura sobre o futuro à base da marcha da ciência.” (p. 195)
  • Esses veículos não estão à margem dos principais temas e porblemas que agitam a consciência nacional. Eles oferecem ao leitor um cuidadoso apanhado da realidade e atualidade. (p. 198)

 9.3 – Calendários e livros de sortes

  • “As folhinhas, em via de desaparecimento substituídas por simples calendários, foram igualmente veículos de comunicação coletiva de importância entre nós, nos últimos cem anos.” (p. 204)
  • Eram calendários que tinha informações como: o santo do dia, comemorações religiosas, feriados, fases da lua… E, no verso, tinham outras tantas informações: higiene, indicações agrícolas, trova. (p. 205)
  • Exerceu grande influência na população, marcante nos hábitos da zona rural. Os pais costumavam batizar os filhos com o nome do santo do dia, que estava no folhinha. (p. 205)
  • Os livros de sortes tratam claramente de assuntos políticos, registrando os fatos e criticando-os, chegando mesmo a tomar partido.
  • “Pela sua ressonância naqueles meios em que nenhuma influência podem exercer as revistas acadêmicas, os livros de sortes exercem marcada influência na opinião popular e o seu conteúdo as grandes linhas do pensamento das massas menos ilustradas e economicamente débeis da sociedade brasileira.” (p.216)

 10. Folkcomunicação Opinitiva

 “É realmente admirável como a informação circula, oralmente ou por escrito até as mais longínquas regiões e entre o público menos ilustrado e mais disperso, utilizando diferentes, exóticos mas nem por isso menos eficientes veículos.” (p. 217)

 10.1 – Os Centros de Informação

  • Centros de informação são “onde as novidades são recebidas e interpretadas, provocando a cristalização de opiniões capazes de, em determinado momento e sob certo estímulo, levar a massa aparentemente dissociada e apática a uma ação uniforme e eficaz.” (p. 217) Esses centros podem ser a mesa do bar, o fogão, a feira, as vendas, a igreja…
  • A informação é lançada no cérebro dos homens, como sementes, mas são nesses centros de informação que elas vão começar a desenvolver-se.
  • É dessa constante conversa e troca de impressões (compositor popular, folheteiro, almanques, dança etc) que a semente da informação germina no espírito dos analfabetos e de todas as pessoas “excluídas” socialmente. (p. 220)
  • Das conversas simples e de calçada é que o povo vai criando as opiniões e pontos de vista. Disso à crítica política é um pulo. (p. 220)

 10.2 – Os Meios de Expressão

  • É importante que as pessoas não apreciem nas manifestações folclóricas, apenas, os aspectos artísticos, mas procure entedê-las como uma linguegem do povo, a expressão do seu pensar e do seu sentir. Muitas vezes oposta ao pensar e ao sentir das classes oficiais. (p. 221)

 10.2.2 – O carnaval e a música popular

  • O carnaval é uma festa clímax da manifestação opinativa do povo. Nele as pessoas se sentem livres e a vontade para darem sua opinião em relação a questões religiosas, políticas, sociais e culturais.(p. 225)
  • Alguns artistas não se destacam apenas em épocas de festa e “falam” pelo povo todas as épocas do ano: Luiz Gonzaga, Noel Rosa, Dorival Caymi, Capiba, Nelson Ferreira são alguns exemplos. (p. 225)

10.2.3 – O mamulengo

  • No mamulengo veicula-se informações e críticas interpretativas dos sentimentos populares.
  • O mamulengueiro é uma pessoa que, normalmente, tem outro trabalho (no qual se abastece de informações) mas na hora que assume o seu papel de mamulengueiro, assume a função de agente da comunicação para as massas populares. (p. 228)

 10.2.4 – O bumba-meu-boi

  • Entre os autos populares é o que melhor o povo exprime sua crítica e o que tem o maior conteúdo jornalístico. (p. 229)
  • Os personagens secundários podem mudar de região para região do país, mas os principais são sempre mantidos e os que representam as classes superiores são caricaturados, ridicularizados. O que torna o folgueto uma reivindicação.
  • No bumba-meu-boi o povo sente que não está apenas sendo espectador, mas, sim, o maior ator. Esse é um fato importante para ser levado em consideração. Na comunicação popular além de ter uma informação que faça sentido para quem está recebendo (não é distante como seria um jornal tradicional), o povo sente que também está fazendo a notícia. E é por isso que a comunicação é um direito humano, ela é repleta de sentidos e signos e devem estar sempre em movimento, em uma via dupla, não única. (p.231)

 10.2.5 – Artesanato e artes plásticas populares

  • Existem vários artistas plásticos famosos pelo mundo, mas a grande maioria do povo brasileiro não os conhece. É porque a maioria desse povo tem os seus próprios artistas plásticos que fazem das artes plásticas mais uma forma de exprimir os sentimentos dos meios de que procedem. (p. 242)

 11. Conclusões

 “A comunicação jornalística é o instrumento básico para promover a interação social com vistas aos programas de desenvolvimento cultural e econômico em qualquer nacionalidade. No caso brasileiro, impõe-se a reunificação do pensamento e da ação das duas camadas sistintas de sua população.” (p. 255)

  • É importantíssimo o restante do Brasil perceber que existe uma grande parcela da população utilizando da folkcomunicação para se comunicar. Perceber que a comunicação alternativa tem sido a saída, e sempre foi, para que essas pessoas tenha acesso ao que acontece no mundo em volta.
  • Conclusões:

a)      A existência de um sistema de comunicação entre os grupos marginalizados da população brasileira – folkcomunicação (por ser agentes e veículos estarem relacionados, direta ou indiretamente, com manifestações folclóricas. (p. 257)

b)      Esses indivíduos se mantêm informados e exprimem a sua opinião com uma atualidade e vigor surpreendente. – natureza dinâmica do folclore. (p. 257)

c)       A maioria dessas manifestações são jornalísticas. (p. 257)

d)      A identificação dos líderes de opinião que atuam como jornalistas sem perceberem, na maioria dos casos, a importante função social que desempenham. (p. 257)

e)      O folkjornalista exagera, acrescenta, reduz, buscando, dessa forma, melhor sensibilizar seu público. Não se trata de um processo de deformação, mas de um meio de adequar a informação à mentalidade do receptor. (p. 258)

f)       Todas as revoluções da nossa história tiveram a participação dos dois brasis (elite e povo) (p. 258)

  • A comunicação no Brasil é o problema fundamental da sociedade contemporânea brasileira. (p. 259)

 Análise:

  • Percebe-se que em todos os casos em que o autor cita a comunicação popular é de vital a presença do líder de opinião. É ele quem vai traduzir as informações para que aquela população entenda e a toque. Ele vai colocar os exemplos necessários e a linguagem adequada. Vai fazer com que as pessoas se apropriem daquela informação e repassem do jeito de cada um. Essa pessoa é um folkcomunicador. Normalmente não tem idéia da sua importância.
  • Na época que Luiz Beltrão escreveu o livro (1959/1967) a situação do povo brasileiro era diferente da de hoje em dia. Ainda existem muitas das comunicações utilizadas pela população mais excluída, mas a indústria cultural se espalhou bem mais e a realidade mudou bastante, principalmente na população periférica das grandes cidade. O meio rural ainda continua mais semelhante ao que analisou o autor.
  • Dessa forma, é ainda mais difícil produzir informação sem interferência da indústria cultural. Essa população está cada vez mais vulnerável à “não-informação”. Mesmo assim, ainda existem os líderes de opinião e eles sempre vão fazer o que podem para levar a informação.

Equipe: Gustavo Delfino, José Cavalcanti, Mariana Borges, Rômulo Alcoforado, Thiago Vasconcelos e Yuri de Lira.

    Capítulo I – Cultura e Sociedade Global

Segundo Renato Ortiz, as pessoas que escrevem sobre “mundialização” são, geralmente, otimistas quanto ao futuro ou ligadas a certos interesses (de países, multinacionais, etc.). O uso de metáforas permeia essa literatura por conta de o tema estar ainda fora do alcance das Ciências Sociais. A Economia seria aquela que mais teria subsídios acerca dessa nova realidade. Os economistas, por sinal, estabelecem uma importante distinção entre “mundialização” e “globalização”. O primeiro conceito está relacionado ao aumento das atividades econômicas no tocante à extensão geográfica, o que já existe há algum tempo na história. Já o outro é uma prática mais complexa, voltada, estreitamente, ao mercado e às estratégias mundiais – que trabalham como mosaicos de peças interdependentes, porém, concomitantemente, interligadas. Ainda de acordo com o autor, a cultura mundializada corresponde às mudanças estruturais dentro da sociedade – que, inclusive, não são feitas imediatamente. Essa tipo de cultura também não causaria uma homogenização social, tampouco acabaria com as outras manifestações. Pelo contrário. Ela se muniria delas. (cap I. Cultura e sociedade global)

Já não seria mais a produção em massa que orientaria a estratégia comercial das grandes empresas, mas a exploração de mercados segmentados (customized productos).” (p. 14)

Se entendermos por globalização da tecnologia e da economia a internacionalização das trocas, de produtos e de conhecimento, evidentemente não estamos diante de um fato original. O mesmo pode ser dito quando falamos da multinacionalização de empresas nacionais que operam em escala internacional. Por isso as economias começam a estabelecer uma distinção entre internacionalização e globalização.” (p. 15)

Internacionalização se refere simplesmente ao aumento da extensão geográfica das atividades econômicos através das fronteiras nacionais; isso não é um fenômeno novo. A globalização da atividade econômica é qualitativamente diferente. Ela é uma forma mais avançada, e complexa, da internacionalização, implicando um certo grau de integração funcional entre as atividades econômicas dispersas.  (p. 15)

A demonstração da hipótese. A observação crítica quanto às ciências sociais contemporâneas e, em especial, a antropologia. Sendo a globalização “um fenômeno emergente, um processo ainda em construção [...] se choca com boa parte da tradição intelectual existente” (pp.15-21).

A construção do quadro da globalização. A história da lanchonete McDonalds e até o invento do microcomputador utilizado para mostrar a ruptura dos marcos espaciais que caracterizaram o período pré-sociedade-mundo. As diferenças sutis entre internacionalização – “o aumento da extensão geográfica das atividades econômicas” – e globalização. Esta última diferencia-se da primeira porque “se aplica à produção, distribuição e consumo de bens e de serviços organizados a partir de uma estratégia mundial, e voltados para um mercado mundial”. O pensamento hesita em conferir um estatuto científico a essa entidade que deveria ser considerada como uma espécie de “mega-sociedade “, modificando as relações políticas, econômicas e culturais entre as partes que a constituem” (pp.16-17).

A sociedade global seria um “macrocosmo dos macrocosmos sociais”, possuindo uma originalidade e uma vida própria. Gurvith considera assim diversos tipos de sociedades globais: a nação. Os impérios (Roma, China, etc.), e as civilizações (Islão).” (p. 17)

Seu livro O mundo atual: história e civilizações nos apresenta a Terra como um conjunto de civilizações geograficamente dispersas: Islão, continente negro, Extremo Oriente, Europa, América, etc. Cada espaço é marcado por valores particulares e por uma mentalidade coletiva modal, pois uma civilização é uma continuidade no tempo da larga duração. Tudo se passa como se cada “cultura” tivesse um núcleo específico, permanecendo intacto até hoje. O mundo seja um mosaico, composto por elementos interligados, mas independentes um dos outros. (p. 17)

O que Parsons em princípio reconhece: “Da mesma maneira que existem grupos internos, cujos interesses atravessam as linhas nacionais, a ideia de uma soberania absoluta dos governos é, na melhor das hipóteses, uma aproximação da verdade”. Coerente com suas premissas, o raciocínio do autor caminha no sentido de explicitar a existência de alguns elementos normativos de caráter internacional. (p. 18)

O processo de ocidentalização não conheceria fronteiras. (p. 18)

A elaboração de uma Sociologia abrangendo o globo terrestre. A extensão territorial, reduzida antes às sociedades nacionais, pode assim se prolongar no interior de um espaço mais amplo. O mundo torna-se um “superestima” englobando outros “sistemas” menores, em tamanho e complexidade. (p. 19)

Herder, o romântico alemão que “inaugura uma maneira de pensar” que permitirá compreender a humanidade como um conjunto, uma somatória de identidades particulares, nacionais. Essa nova maneira de pensar será completamente oposta ao iluminismo universalista, já que a “cultura existiria apenas no plural, enfoque antôgonico à visão abrangente do iluminismo [...] dimensão pluralista [que] permanece e permeia toda a tradição antropológica” (p. 20).

A herança intelectual tende a ressaltar aspectos específicos de cada cultura. Herder, que inaugura uma maneira de pensar, vai considerá-la como a “totalidade de um modo de vida”, o “espírito de um povo. (p. 20)

Cada “povo” é uma entidade, um “mundo” diverso dos outros. Decifradores de uma linguagem oculta, os antropólogos se vêem como estudiosos das diferenças. A categoria cultura lhes permite das conta desta pluralidade dos modos de vida e de pensamento. (p. 21)

A história do sistema mundial se confunde inteiramente com a evolução do capitalismo. Como base econômica constitui a unidade privilegiada de análise, as manifestações políticas e culturais surgem como seu reflexo imediato. (p. 22)

Hábitos alimentares, maneiras de se vestir, crenças, enfim, os costumes fazem um contrapeso à modalidade mercantil, confinada ao domínio das trocas internacionais. A correlação entre cultura e economia não se faz, portanto, de maneira imediata. Isso significa que a história cultural das sociedades capitalistas não se confunde com as estruturas permanentes do capitalismo. (p. 24)

Cultura é o sistema-ideia  desta economia capitalista mundial, a conseqüência de nossas tentativas, coletivas e histórias, em nos relacionarmos com as contradições, as ambigüidades, e a complexidade da realidade sócio-política desse sistema particular.(p. 26)

Uma cultura mundializada não implica o aniquilamento das outras manifestações culturais, ela coabita e se alimenta delas. Um exemplo: A língua…

Kautsky lembrava que o desenvolvimento das relações mundiais impunha cada vez mais a necessidade de uma língua unitária…    

O mundo caminharia assim, pelo menos numa primeira fase evolutiva, para a seleção de algumas línguas universais (árabe, francês, inglês, espanhol e russo) cobrindo determinadas áreas geográficas. (p. 27)

 Para existir enquanto língua mundial o inglês deve se nativizar, adaptando-se aos padrões das culturas particulares. 

Como observa Claude Truchot, o inglês se caracteriza pela sua transversalidade, ele atua no interior de um “espaço transglóssico” no qual outras expressões lingüísticas se manifestam. Ele “engloba todos os usos de caráter extranacional, mas apenas esses usos. (p. 28)

Uma cultura mundializada corresponde a uma civilização cuja territorialidade se globalizou. (p. 31)

Uma sociedade é um conjunto de subgrupos cujos modos particulares se distinguem no interior de um modelo comum. Mas em nenhum momento, na análise das sociedades primitivas, fala-se de “estandardização” da cultura (não faria sentido descrever a vida dos aborígenes das ilhas de Trobriand utilizando a categoria padronização). É apenas na discussão das sociedades modernas que pattern se identifica a standard, significando com isso uma homogeneização dos costumes. (p. 32)

Uma civilização promove um padrão cultural sem com isso implicar a uniformização de todos. (p. 33)

 A explicação para o termo “a linha de meu raciocínio”, é, basicamente, a idéia de integração, modernidade e, novamente, uma crítica à antropologia, especialmente a um dos seus fundadores: Marcel Mauss. “os antropólogos se vêem como estudiosos das diferenças” (p. 49)

“Modernidade radicalizada”, ou “alta modernidade”, definem a “especificidade da época que atravessamos” (p. 67).

Capítulo II – Advento de uma civilização

Economias interdependentes entre si começaram a se tornar uma só no inicio do século XV, época do desenvolvimento do capitalismo. As Grandes Navegações aceleraram o processo. À época, todavia, era prematuro tratar isso como “globalização”. Até o final dos anos de 1800, ainda que a uma economia internacionalizada começasse a florescer, eram predominantes as “economias-mundo”. Crescendo em um círculo de trocas que envolvia determinada área geográfica, ela teria um centro que se estendia até os limites de sua influência – a exemplo da China, Japão e dos países do Islã. Vale salientar que só recentemente, meados do século XIX, que se estabeleceu uma economia global única. Para o autor, o mundo pré-Revolução Industrial conserva a pluralidade e a autonomia dos povos. Entretanto, após esse processo, “a divisão de trabalho e a pluralidade funcional dos papeis requer de seus membros uma maior mobilidade, uma capacidade de se adaptar às diferentes ocupações que possam exercer”. Assim, uma nova organização social é estabelecida no século XIX. A coerção administrativa do poder do Estado é deixada de lado, enquanto um ideal comum (de nação, ou seja, de progresso e mundialidade) passa a ser concebido pelos cidadãos em uma “consciência coletiva”. Para isso, símbolos nacionais foram criados e uma língua única teria que predominar. A escola, a imprensa e os meios de transporte tiveram importante participação nesse processo junto ao surgimento da modernidade entendida como organização social – potencializada, em seguida, pelas técnicas informatizadas. (cap II. Advento de uma civilização)

Uma maneira de ilustrar essa autonomia das culturas é retomando-se o conceito de economia-mundo cunhado por Braudel. Para ele, uma economia-mundo evoluiria no interior de um círculo de trocas envolvendo uma área geográfica delimitada.(p. 36)

A pergunta que nos interessa é a seguinte: em que momento essas economias, independentes entre si, tornam-se uma só? A resposta, alguns autores procuram no desenvolvimento do capitalismo entre os séculos XV e XVIII. Este é o momento de sua expansão. Dinamizado pelas descobertas marítimas (o planeta torna-se  geograficamente unificado), o capitalismo, um produto do Ocidente, promove seus valores universais, e etnocêntricos, em escala ampliada. (p.36)

O mapa-mundi era concebido como uma sucessão de círculos concêntricos. Vinha primeiro a China, em seguida os países achinesados (Japão e Coréia), depois os povos longínquos. O que se encontrava fora do círculo central é assimilado à barbárie; a luz brilha apenas no domínio do conhecido, do que é controlado material e simbolicamente pelos homens. (p. 38)

O mundo anterior à Revolução Industrial conserva portanto as pluralidade e a autonomia das civilizações. Mas eu diria que mesmo no interior das sociedades ocidentais existem defasagens, espaços impermeáveis aos valores modais desta cultura. (p. 39)

Como afirma Carlo Cipolla, “pode-se dizer, sem medo de se equivocar, que até a Revolução Industrial o homem, para obter energia, continuou confiando principalmente nas plantas, animais e outros homens (…) foi limitado. (p. 40)

Como demonstra Polanyi, o capitalismo evoluía apenas na esfera internacional, no fluxo do intercâmbio entre mercado interno e externo não era apenas de tamanho, tratava-se de instituições com funções e origens distintas. (p. 41)

O meio de transporte é visto como um sistema de engrenagem, mas não sua exploração. Ainda na fase inicial de seu desenvolvimento, as estradas de ferro eram concebidas como algo intermediário entre os caminhos terrestres e os canais de navegação. (p. 46)

O Vapor suprime as distâncias, dirão os homens do século XIX. Esta ideia de um encolhimento do espaço é generalizada. Dentro da nova ordem social o espaço é representado como algo que se desagrega. No entanto, esta compreensão é ilusória. Espaço e tempo são categorias sociais (como diria Durkheim) e não entidades abstratas, matemáticas. (p. 47)

Embora os homens tenham construído as clepsidras e os relógios em épocas mais remotas, eles pautavam suas vidas cotidianas pelo tempo mensurado por esses mecanismos.

O dia torna-se assim um conceito abstrato, que não mais se encontra em consonância com o clarear e o escurecer, das noites e das tardes, mas segundo o movimento do Sol em relação à Terra. (p. 50)

O mundo no qual os homens agora circulam, para se unificar, tem que ajudar a maneira de se contabilizar o fluir do tempo, sem o que sua racionalidade não encontraria meios para se concretizar. O tempo, representação social por excelência, se adéqua às exigências de uma civilização urbano-industrial. (p. 51)

No Brasil, a emergência de um sistema de telecomunicação (meados dos anos 60) favorece a integração do mercado e da consciência nacional, as imagens televisivas, pela primeira vez, podem ser veiculadas em todo o país.

As telenovelas, produtos de expressão local, irão assim transformar-se em símbolos nacionais, levando ao público uma auto-imagem moldada pelas grandes redes televisivas.

Peter Manuel observa que apesar da variedade de tipos de música indiana existe uma relativa homogeneidade, um denominador comum, para a música popular.

Na Índia, como em vários países em desenvolvimento, a música popular tornou-se uma expressão importante, e o veículo de uma identidade urbana pan-étnica. (p. 59)

Um autor como Alvin Toffler não hesita em dizer: “[Vivemos] na aurora de uma nova era do Poder, momento no qual toda sua estrutura, que mantinha o mundo coeso, está se desintegrando. Uma estrutura de poder radicalmente diferente está emergindo. Isso ocorre em todos os níveis da sociedade. (p. 67)

Talvez fosse mais correto dizer que nos encontramos diante de uma “sobremodernidade”, uma configuração social que se projeta para “além” da anterior, mas que se constrói a partir dela. Giddens, sugestivamente, caracteriza o período em que vivemos como sendo de uma “alta modernidade”. (p. 69)

 Capítulo III – Cultura e modernidade-mundo

O autor lança a seguinte problemática: como entender o contato entre as civilizações? A partir daí, ele trabalha os conceitos de mapa cultural (espaço ocupado por unidades distintas, dinamizadas pelo movimento de cada uma dessas partes) e salienta que as sociedades não são estáticas, mas dinâmicas entre si. As suas culturas entram em contato através dos próprios homens – por via da memória coletiva. Esse “choque cultural”, inclusive, se dá no seio de um território. Ortiz ressalta ainda que uma cultura tem a capacidade de reinterpretar os elementos forâneos. No século XX, dois movimentos dão força ao processo de mundialização: a diversificação dos produtos e a produção em escala industrial. Um exemplo disso acontece na culinária, em que os alimentos perdem a fixidez dos seus territórios e de adaptam ao contexto em que estão inseridos. Não há “mexicanidade” nos tacos da Bell, nem “italianidade” nas pizzas Hut. A McDonalds, por sua vez, leva a taylorização às cozinhas por conta da “aceleração da vida” das pessoas. O capitalismo ianque, materializado nessas multinacionais, impõe a sua coerção a todos. Renato Ortiz fala também dá unicidade linguística, que daria legitimidade à nação e fortaleceria o mercado. Uma língua “estrangeira” torna-se “secundária” com a mundialização – o que o ocorre com o inglês em vários países (sobretudo, naqueles que têm uma variedade de línguas conflitantes).

“Toynbee considera a evolução da humanidade como um organismo, cujo ciclo da vida passaria por momentos distintos: nascimento, crescimento e morte. Todo seu esforço coniste em apreender a gênese e o declínio das formações sociais, na esperança de descobrir uma lógica na sequência de surgimentos e desaparecimentos das culturas humanas.” p. 71

O problema levantado por Toynbee é sugestivo. Ele revela um tipo de concepção subjacente a um conjunto de estudos. Afinal o que é mapa cultural? Trata-se de um espaço ocupado por unidades diferenciadas, no qual a dinâmica  global se faz a partir do movimento de cada uma das partes. (p. 72)

A problemática da transmissão cultural se impõe assim com capítulo importante para a compreensão das influências mútuas. Mas o que devemnos entender por difusão cultural? A difusão é processo  pelo qual os elementos  ou sistemas  de cultura se espalham. Obviamente está ligado a tradição, na medida em que a cultura material passa de uma geração para outra.” (p. 74)

O choque ou assimilação cultural se faz sempre no seio de um território, a nação, a cidade, o bairro. (p 75)

A comida representa simbolicamente os modos  dominantes de uma sociedade. (p. 77)

(…) os hábitos alimentares se moldam no espaço. (p. 79)

Com o advento das técnicas de conservação, o barateamento e transporte, a invenção da comida insdustrial transformaram radicalmente esse quadro. Por isso alguns estudiosos  começam a falar de internacionalização de comportamentos alimentares.
(p. 79)

A comida insdustrial não possui nenhum  vínculo territorial. (p. 81)

Não há tempo para se comer em casa, daí a necessidade  de se conseguir uma boa alimentação a preços módicos. A modernidade impõe  seu ritmo aos costumes arraigados. Os  primeiros drive-in  já exprimem  uma adequação da refeição ao movimento dos automóveis. (p. 82)

A refeição estruturada (entrada, prato principal, sobremesa) cede lugar a uma alimentação fragmentada. Contrariamente à refeição tradicional, que se fazia em horários fixos, come-se agora em horas variadas. Se antes os membros da família se sentavam regularmente à mesa partilhando um momento em comum, hoje,  cada um tende a coordenar seu tempo em função de suas próprias atividades. (p. 85)

A evidência dos balanços estatísticos ( cultura importada x cultura exportada) pertence ao reino da quantidade. (…) Cultura e economia seriam assi  dimensões equivalentes. (p. 94)

Na verdade, esse tipo de pensamento capta apenas as aparências das coisas, identificando modernidade com american way of life. (p. 95)

A McDonalds assume um papel de protagonista da história na americanização da cultura mundial, observando, porém, que “as relações sociais mundializadas [...] na qual fica difícil localizar a centralidade das coisas, não significa ausência de poder, ou a sua partilha em termos democráticos. Pelo contrário, as relações de autoridade, ao se tornarem descentralizadas, adquirem outra abrangência. A civilização mundial, a nos situar em outro patamar da história, traz com ela desafios, esperanças, utopias, mas engendra também novas formas de dominação. Entendê-la é refletir sobre as raízes de nossa contemporaneidade” (p. 104).

 Capítulo IV – Uma Cultura internacional-popular

A desterritorialização é abordada através da história de um viajante alemão que vai até o fechado regime da China, onde se sente um “peixe fora d’água”. No entanto, em Hong Kong, também na Ásia, o quadro se reverte e ele passa a conviver em um cenário familiar europeu. O segundo país é como um lugar sem conteúdos próprios (ou, talvez, cheio de vários outros conteúdos), capaz de receber qualquer pessoa do planeta sem que ela tome um choque cultural. Esses lugares, assim como os free-shops dos aerportos, algumas cidades turísticas e hoteis internacionais são o que podemos chamar de “não-lugares”. Multinacionais fazem parte do local, e os processos industriais, por exemplo, ocorrem em diferentes cantos antes da produto-final ser finalizado. A desterritorialização acontece ainda na chamada cultura internacional popular, alvo do mercado consumidor – em que a nacionalidade pouco conta, o que vale mesmo é a distinção social (e não utilidade do produto) que ele causa em quem o consome. A publicidade, trabalhando na perspectiva do homem universal, se torna protagonista da identidade nacional, e os símbolos ganham origem no mercado – a exemplo da Disneylândia, Hollywood e Coca-Cola, para os norte-americanos. Fala-se em memória nacional, ou seja, um universo simbólico de rememorização das vivências compartilhadas por todos. Mas, ela se constrói através do esquecimento (amnésia seletiva) das contradições da história. 

Para Jean Chesnaux o “hors-sol” constitui uma categoria geral  da modernidade, uma situação de dissociação em relação ao meio natural, social, histórico e cultural. (p. 105)

A velocidade das técnicas leva a uma unificação do espaço, fazendo com que os lugares se globalizem. (p. 106)

O movimento da mundialização percorre dois caminhos. O primeiro é o da desterritorialização, constituindo um tipo de espaço abstrato, racional, des-localizado. Porém, enquanto pura abstração, o espaço, categoria social por excelência, não pode existir. (p. 107)

Temos a tendência em detectar mundialização por meio de seus sinais exteriores. McDonald’s, Coca-Cola, calças jeans, televisores, e toca -discos. (p. 107)

O movimento de deslocalização da produção (…) A competição internacional faz com que as grandes empresas tenham interesse em diminuir o custo de seus produtos. A flexibilidade das tecnologias lhes permite descentralizar a produção e acelerar a produtividade. (p. 108)

Temos apenas uma série de referências simbólicas que funcionam como sinais de distinção social no mercado consumidor, Sua nacionalidade conta pouco.” (p. 112)

“refletir sobre a mundialização da cultura é de alguma maneira se contrapor, mesmo que não seja de forma absoluta, à idéia de cultura nacional” (p. 116)

Caberia, pois, unicamente à  memória coletiva nacional  integrar a diversidade das populações e das classes sociais , definindo  desta forma a identidade  do grupo como um todo. (p. 117)

Até o final do século XIXI, o produto é percebido apenas  como  algo funcional. (…) Sua utilidade é o elemento predominante  prepoderante na sua definição. A sociedade emergente requer, no entanto, um outro entendimento das coisas. As mercadorias tem de ser adquiridas independentemente de seu ” valor de uso”. A ética do consumo privilegia sua “inutilidade”. Há portanto, um choque de valores. (p. 119)

Através da publicidade o consumo adquiriu um tom nitidamente cultural. (p. 121)

O universo do consumo surge assim no lugar privilegiado da cidadania . Por isso os diversos símbolos de identidade têm origem na esfera do mercado, Disneyland, Hollywood e Coca- Cola constituem o espelho autêntico american way of life.(p. 122)

A memória internacional-popular funciona como um sistema de comunicação. Por meio de referências culturais comuns, ela estabelece a conivência entre as pessoas. (p. 129)

A dimensão global supera o aspecto nacional. Desta vez o protagonista do argumento não será a Mc Donalds, mas Walt Disney. Se a antiga Disneylandia – na Califórnia dos anos 50 – foi a representação territorializada da sociedade americana, ela se metamorfoseia em representação do mundo em Orlando, na EPCOT (Experimental Prototype Community of Tomorrow) dos anos 80, que, cede lugar a uma preocupação global” O mundo se faz segundo a Mc Donalds e Walt Disney. (p. 143).

 Capítulo V – Os artífices mundiais de cultura

Renato Ortiz tenta desvendar quem são os “artífices mundiais da cultura”, ou seja, os grandes responsáveis pela cultura-mundo. Eles são, habitualmente, executivos, homens de negócios e marketing, administradores e managers globais, que mantêm relações feitas de forma direta – sem a mediação de uma referência nacional. O autor conta que essas pessoas são praticamente forçadas a perder toda a relação com as antigas culturas da nação, diferentemente dos seus antecessores pré-globais (as ditas antigas multinacionais). Ortiz fala que o que é local não se contradiz ao global. Um se interliga ao outro. É ressaltado, novamente, que a globalização se dá pela diferenciação, e não pela homogeinização.

Os grandes responsáveis por essa cultura-mundo são os homens de negócios, os executivos globais, os homens de marketing, os administradores globais, os managers globais, segundo, Armand Mattlear, “intelectuais das grandes corporações”. Uma série de leituras sobre o marketing e a administração global, se trata de “leitura cínica e sugestiva” (p.148).

O local não está necessariamente em contradição com o global, pelo contrário, encontram-se interligados, no entanto é tempo de entender que a globalização se realiza através da diferenciação (p. 181).

 Capítulo VI – Legitimidade e estilos de vida

A sociologia pressupõe a cultura em duas referências: tradição e artes. Ambas orientariam a conduta dos homens. Ortiz pergunta-se se elas seriam concepções de mundo válidas (ou socialmente dominantes) no contexto de uma cultura mundializada. As tradições populares são deslocadas pelo impacto da modernidade ao entrarem em conflito com as sociedades industrializadas. Em contrapartida, a autonomia das artes acontece já no seu aparecimento. Até o século XVIII as obras de arte cumpriam apenas um papel religioso, político ou de ornamentação. Logo após, surge o artista livre, que escolhe os seus temas e linguagens com poucas interferências externas. Esse fato possibilitou a criação de uma nova legitimidade cultural – associadas às classes sociais (cultura erudita e cultura popular). O que acontece também é um mecanismo de discriminação da primeira sobre a segunda. Surge uma hierarquia cultural que se dá pelos consumo das classes.

Nos Países europeus o impacto da modernização foi sentido durante a Revolução Industrial, onde as produções culturais tradicionais (o estilo de vida europeu, as manifestações artísticas peculiares à época) são modificadas enquanto formas de legitimação. (p.183) Já na America Latina a constituição da modernidade é vista como um processo mais complexo de difícil, sem um momento histórico que possa ser dito como um marco deste processo, mas mesmo assim a crise da legitimidade das culturas populares é visível. (p. 184)

A modernização da sociedade tem, como contrapartida, uma reorganização da esfera cultural, sobretudo com a consolidação, nos anos 60 e 70, das indústrias culturais (Televisa, Rede Globo)

No Brasil, o modernismo ocorreu sem modernização, manifestando um hiato entre sua expressão e a sociedade que lhe dá sustentação (p. 187-188)

Na América Latina e nos Estados Unidos o universo artístico encontra dificuldades para emergir enquanto fonte legítima da vida cultural, já que o pólo de produção restrita se contradiz com a ideologia da produção ampliada, ou seja a oposição entre artista e mercado. (p. 190-191)

A Tradição e as artes não se configuram mais como padrões mundiais de legitimidade, em seu lugar seu injetados valores que independem das peculiaridades de cada lugar, exatamente por possuírem um grau de impacto maior, e vão além das nações e povos, superando os anteiores. Um exemplo disse é a língua inglesa, que caracterizada como mundial, perde sua territorialidade americana ou britânica. O inglês falado em outros locais do mundo na realidade é uma variedade lingüística, pois o padrão britânico/americano encontra-se distante (p. 192-191)

Junto com o conceito de tradição há dois entendimentos possíveis. O primeiro seria a permanência do passado distante, por exemplo, as culturas populares da América Latina. O segundo, a tradição da modernidade, resultado de um “desencaixe” do tempo e do espaço e que “secreta inclusive uma memória internacional” (p. 213).

Capítulo VII – Digressão final

Na derradeira parte do livro, denominada de “Digressão Final”, é retomado o capítulo anterior. Elucida-se os dois entendimentos para o conceito de “tradição”. Um refere-se à permanência de um passado longínquo – a exemplo das culturas populares do continente latino-americano. Já o outro diz respeito à tradição da modernidade, que é se relaciona com uma memória internacional. Os “artífices mundiais”, portanto, estariam ligados a essas duas formas – sem contar com a mediação nacional. Ortiz também faz uma reflexão sobre algumas nuances apocalípticas da sua obra e acrescenta que a mundialidade começa a superar as nações. Além disso, diz não vivemos em um mundo sem fronteiras – posto que o fundamentalismo islâmico e algumas regiões pobres do planeta causariam um tipo de etnocentrismo ao contrário.

O fim do Estado, que teria se dissolvido diante das instâncias internacionais; do espaço, que se anularia pelo movimento da desterritorialização. (p. 217)

As nações deixam de se constituir em espaços hegemônicos de coesão social. A mundialidade começa a superá-las (p. 219).

A sabedoria ameríndia é de natureza comunal

Podemos fazer uma analogia: uma aula é como um ritual pagão. Nós temos o professor como o sacerdote que conduz a cerimônia, e os alunos como os discípulos, ou iniciados, que auxiliam no seguimento do ritual e nas práticas nele envolvidas. Mas no final, todos são participantes. Mesmo que haja uma hierarquia, ela não representa grande coisa, pois o que realmente importa é a cerimônia, que serve a um propósito comum: da mesma forma que os antigos celtas realizavam rituais para pedir uma boa colheita aos seus deuses, a aula é uma cerimônia em onde o principal é o diálogo, que envolve a troca de conhecimentos, levando ao aprendizado de todas as partes. Assim, tanto professores quanto alunos são agentes e sujeitos da transformação resultante da comunicação,  que leva à evolução dos seres e da sociedade, além da formação de novos consensos.

Essa pequena metáfora serve para explicar a contribuição do pensamento de Paulo Freire na prática pedagógica. Não se deve mais encarar uma aula como uma missa católica, onde apenas o padre prega e os fiéis ouvem. Absorve-se apenas parte do conhecimento (uma parte sai pelo outro lado do ouvido), e não há absolutamente nenhum diálogo. A aula deve ser dinâmica como um ritual celta ou indígena, onde todos os seus participantes têm uma função e podem acrescentar algo à aula/cerimônia de forma que um bem comum seja alcançado.
Dessa maneira, a educação pode funcionar como uma agente participativa e formadora de cidadãos realmente conscientes, que reconhecem a si próprios.

Podemos fazer uma analogia: uma aula é como um ritual pagão. Nós temos o professor como o sacerdote que conduz a cerimônia, e os alunos como os discípulos, ou iniciados, que auxiliam no seguimento do ritual e nas práticas nele envolvidas. Mas no final, todos são participantes. Mesmo que haja uma hierarquia, ela não representa grande coisa, pois o que realmente importa é a cerimônia, que serve a um propósito comum: da mesma forma que os antigos celtas realizavam rituais para pedir uma boa colheita aos seus deuses, a aula é uma cerimônia em onde o principal é o diálogo, que envolve a troca de conhecimentos, levando ao aprendizado de todas as partes. Assim, tanto professores quanto alunos são agentes e sujeitos da transformação resultante da comunicação,  que leva à evolução dos seres e da sociedade, além da formação de novos consensos.  Essa pequena metáfora serve para explicar a contribuição do pensamento de Paulo Freire na prática pedagógica. Não se deve mais encarar uma aula como uma missa católica, onde apenas o padre prega e os fiéis ouvem. Absorve-se apenas parte do conhecimento (uma parte sai pelo outro lado do ouvido), e não há absolutamente nenhum diálogo. A aula deve ser dinâmica como um ritual celta ou indígena, onde todos os seus participantes têm uma função e podem acrescentar algo à aula/cerimônia de forma que um bem comum seja alcançado.  Dessa maneira, a educação pode funcionar como uma agente participativa e formadora de cidadãos realmente conscientes, que reconhecem a si próprios.

Em nosso trabalho, nós discutimos duas das principais obras do professor Paulo Freire: A Pedagogia do Oprimido e A Pedagogia da Autonomia. Vinte e seis anos separam a publicação das duas obras. A primeira foi escrita em 1968, mas publicada em inglês no ano de 1970, por conta do banimento das obras de Freire no Brasil da ditadura militar. A segunda, de 1996, foi publicada em nosso país, sob um outro contexto, o da queda do comunismo na Europa e Rússia, e da ascensão das políticas neoliberais, personificadas à época pelo governo de Fernando Henrique Cardoso.

Mesmo assim, ambas as obras possuem um fio contínuo que as liga e envolve. São ensinamentos atemporais, focados no aperfeiçoamento do ser e na mudança de paradigmas da sociedade. O Oprimido é a obra que sintetiza os conceitos pretendidos no Método Paulo Freire, enquanto a Autonomia ressalta a necessidade de ascensão do aluno/educando à categoria de um aprendiz dinâmico – que também contribui para a formação do professor.

Usando palavras que o trabalhador se identificasse, Freire desenvolveu seu Método

O Método, desenvolvido durante a alfabetização de trabalhadores, discorda do ensino como mercadoria – simples transmissão de conhecimento entre A e B, da atitude paternalista e autoritária dos educadores. Ele afirma que o educar não é conhecimento objetivo e estático, politicamente neutro, mas sim dinâmico, passível de diferentes interpretações e, sobretudo, ideológico. Ele consistia de cinco fases. Na primeira, o educador se aproximava conversacionalmente dos alunos, de forma a levantar o vocabulário mais utilizado por aquele determinado grupo. Na segunda fase, essas palavras eram trabalhadas em sala de aula, de acordo com o grau de complexidade e a proximidade cultural/geográfica em relação aos alfabetizandos. Depois, na terceira fase, são criadas situações existenciais, inseridas na realidade dos alunos, com o objetivo de instigar a reflexão e a solução de problemas locais. Nas quartas e quintas fases, são criadas fichas de trabalho, e as palavras antes escolhidas são utilizadas como geradoras, de forma que são divididas foneticamente, para que os alunos criem novas palavras com as sílabas da palavra anterior. Um exemplo: Tra-ba-lho – Tra, tre, tri, tro, tru – Ba, be, bi, bo, bu – lha, lhe, lhi, lho, lhu.

Grupo: Gustavo Delfino, José Cavalcanti Neto, Leonardo Trevas, Mariana Borges

Com o declínio da ditadura militar no fim dos anos 70, os ares de liberdade e democracia contagiaram o Brasil. Após anos traumáticos, marcados por violência, mortes e humilhação, os meios de comunicação celebravam a liberdade de imprensa e ao fim da censura.

Alguns anos depois a economia impulsionou e o capitalismo se consolidou no país, o que também gerou muita desigualdade e exclusão social. Os bens materiais se tornam mais importantes que as pessoas. O rico continua cada vez mais rico, e o pobre cada vez mais pobre. Os políticos e os grandes grupos econômicos preocupados em sempre se manter no poder, utilizam a mídia como grande aliada. A maioria dos veículos de comunicação do Brasil são comandados por políticos ou grandes grupos empresariais. Na televisão várias emissoras e filiais fazem parte desse contexto, como por exemplo, a Gazeta de Alagoas, filial da Rede Globo em Alagoas e propriedade da família do ex-presidente Fernando Collor de Melo. Isso mostra que é evidente que as informações passadas (ou não passadas) através desses veículos estão recheadas de interesses pessoais, políticos e econômicos, que sutilmente manipulam e aliena o receptor.

Partindo desse contexto, temos vários exemplos na televisão brasileira da tentativa de dominação e da violação dos direitos humanos. Começando pelos programas de entretenimento, é bastante comum associar a imagem da mulher ao objeto sexual. Em alguns desses programas, como Domingo Legal do SBT  e Faustão da Rede Globo, dançarinas ficam ao fundo do apresentador, usando decotes, saias curtas, que são destacados nos intervalos das atrações através de closes sem pudores. No caso do Programa da TV a vulgarização e diminuição da mulher são bem mais evidentes. As mulheres sempre aparecem de biquínis ou roupas curtíssimas e muito justas. São apelidadas por nomes de frutas de acordo com o tamanho de uma determinada parte do seu corpo. Sua função no programa é seguras os produtos do patrocínio bem próximos ao corpo. Há também a única apresentadora mulher, que interpreta o papel de burra falando besteiras e levando broncas dos outros apresentadores.

Nos programas policias, que são bastante populares, o estereotipo do apresentador é do homem “machão”, que impõe sua voz e dá broncas nos bandidos. Em Pernambuco, um exemplo desses programas é o Bronca Pesada, exibido pela TV Jornal, filial do SBT. No programa, o apresentador se refere aos bandidos como “cabra safado” e “alma sebosa” e afirma que a melhor maneira de se combater a violência é os matando ou os enjaulando para sempre. Nas reportagens, a violência é explorada mostrando cadáveres, sangue, com musicas de fundo e narrações feitas pelo repórter detalhando a crueldade sofrida pela vitima. Além disso, o programa tem um quadro onde as pessoas, na maioria das vezes mulheres, solicitam o exame de DNA para saber quem seria o pai da criança. Os personagens são explorados, humilhados com ironias do apresentador e músicas pejorativas.

Em 2009, a terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) foi aprovado pelo decreto 7.037, previa que a televisão brasileira garantisse o direito à comunicação democrática e ao aceso a informação para a consolidação de uma cultura em Direitos Humanos, o que não agradou nem um pouco as grandes empresas de comunicação, que protestaram dizendo que o ato seria contra os princípios de liberdade de imprensa. Liberdade de imprensa não quer dizer denegrir a imagem e desrespeitar as pessoas, liberdade de imprensa é a busca da verdade com responsabilidades e respeito aos seres humanos.

Isso mostra o cenário em que vivemos hoje em dia. Onde a detenção do poder é disputada a qualquer preço, passando por cima de valores éticos e morais. É nosso dever como cidadão escolher o que queremos assistir e o que é o melhor para a nossa sociedade e não o que é melhor para uma determinada empresa privada.

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